A crise econômica enfrentada pelo Brasil atualmente tem se refletido fortemente nas contas das instituições filantrópicas. Como o poder de compra da maioria da população diminuiu, as doações estão entre os itens que mais sofreram cortes no orçamento da população. Em Apucarana, entidades apontam queda de até 60% no volume de arrecadação, o que exige adaptação e adiamento de planos.
Entidades menores ou menos conhecidas acabam sofrendo um pouco mais. A Associação de Libertação de Vidas em Apucarana (Alva) cuida de dependentes químicos. Atualmente, a instituição possui 17 internos. De acordo com o assistente administrativo da entidade, Ananias Souza, a queda de doações foi de aproximadamente 60%. “É uma redução grande, que dificulta nossa situação para manter a entidade, inclusive para pagar contas como água e luz. As famílias dos internos têm ajudado, mas mesmo assim precisamos nos adaptar”, diz.
Ananias afirma que uma obra de ampliação necessária para melhorar a estrutura da entidade precisou ser paralisada e não tem data para ser retomada. “Conseguimos começar a construção de uma cozinha industrial, mas tivemos que adiar a conclusão. Esperamos que em breve possamos retomá-la”.
Mesmo as entidades maiores sofrem com a falta de doações. A Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Apucarana também enfrenta dificuldades com as doações, como afirma o presidente Luís Fernando Matiuzzi Lemos. “Temos quase 300 alunos. Somos a maior Apae do Paraná em área total. Só de manter tudo isso já é uma vitória para nós, sobretudo em tempos de crise”.
Segundo ele, a Apae tem um serviço que entra em contato com possíveis doadores. “Nosso serviço de telemarketing é o que tem segurado a entidade, auxiliado pelo nome de forte credibilidade da nossa instituição. As doações ainda conseguem manter os gastos, mas os investimentos novos foram por água abaixo. Temos uma clínica de fonoaudiologia que é referência na cidade e na região, mas está instalada em um espaço que não comporta a demanda. Temos planos de criar uma clínica nova, anexa ao prédio principal, mas por enquanto isso não é possível”, diz.
Presidente do Lar Sagrada Família, que cuida de aproximadamente 20 crianças entre zero e 12 anos, Antônio Carlos Machado explica que as instituições filantrópicas acabam tendo que buscar outras formas de arrecadação. “Todas as entidades estão se vendo obrigadas a apelar para campanhas e eventos, o que acaba de certa forma ‘congestionando’ a sociedade. Mesmo quem tem vontade de doar acaba não fazendo. Tivemos queda de 40% na arrecadação. As doações de alimentos ainda resistem, mas precisamos de dinheiro para custear principalmente a folha de pagamento. Mas esse tipo de doação foi que caiu mais”, diz ele, citando a necessidade de pelo menos mais quatro funcionários na entidade: uma cozinheira e três cuidadoras.
Também com redução estimada de aproximadamente 40% nas doações está a Sociedade Protetora dos Animais de Apucarana (Soprap). “Essa redução limita muito o nosso trabalho. Temos 130 cães e 200 gatos sob os nossos cuidados e tivemos que criar promoções e parcerias, como as caixinhas que espalhamos no comércio. Mas mesmo assim é complicado, já que as caixinhas já foram furtadas algumas vezes”, diz a presidente da entidade, Isamelia Andrea Ballan.
Casa Lar corre risco de fechar
Os reflexos da crise financeira afetaram também as entidades sociais de Ivaiporã. Segundo Irineo de Campos, presidente da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Ivaiporã, as dificuldades vêm desde 2014. “Está bem difícil mesmo. Acredito que o pessoal está segurando por causa da situação do país. Com a inflação alta e o aumento do desemprego as pessoas dão prioridade primeiro para os seus”, destaca Campos.
A Apae atende em tempo integral 315 pessoas com deficiência intelectual, associada ou não a outras deficiências, através da Escola Especial de Ivaiporã. A entidade mantém ainda a Casa Lar da Apae, que abriga cinco crianças com deficiência intelectual e não têm onde morar.
Campos relata ainda que inclusive a Casa Lar correu risco de fechar. “Só não fechou porque fomos pedir ajuda às prefeituras de Ivaiporã, Jardim Alegre, Arapuã, Ariranha do Ivaí e Lidianópolis. Desde então, elas passaram a contribuir também com a Casa Lar e estamos conseguindo mantê-la”, destaca.
A diretora da Escola Especial de Ivaiporã, Vera Beltrão, comenta que para driblar a crise a entidade tem procurado novos voluntários e parceiros. “Temos recebido apoio do Rotary, da Maçonaria e outras entidades. Graças a isso, estamos conseguindo manter a finança da entidade equilibrada. Não falta, mas também não sobra. Doações mais substanciais, de até R$ 3 mil, ficaram para trás junto com a crise”, relata. (IVAN MALDONADO)