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Quando a desesperança fala mais alto

Vanuza Borges

| Edição de 17 de abril de 2016 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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Desespero e desesperança. Dois sentimentos decisivos na hora de tomar a decisão do suicídio, afirma a coordenadora do programa Saúde Mental, da 16º Regional de Saúde (RS), de Apucarana, a psicóloga Ângela Maria Maioli Blanski. Nos dois últimos anos, o número de casos de lesões autoprovocadas foi de 46 mortes, o que corresponde a quinta causa de óbito na região de abrangência da 16ª RS. Somente neste ano, de janeiro a abril, foram cinco ocorrências. A incidência já representa 21% dos casos registrados no ano anterior.

Dos 23 casos ocorridos em 2015, 18 eram homens, representando 78% das mortes. No ano anterior, das 23 situações, 16 também foram protagonizadas por homens. “Acontece em função da própria responsabilidade e educação que o homem traz na vida. O homem também é mais radical em suas decisões”, analisa a psicóloga.

Como exemplo, Ângela cita a responsabilidade dada ao homem de cuidar da família, que pertence ao inconsciente coletivo. Nesta situação, se este homem é vulnerável emocionalmente e perde o emprego, não está qualificado para outra colocação profissional e já está numa idade mais avançada, pode ficar depressivo e desesperado. “A pessoa que vai cometer o suicídio demonstra esse desespero”, afirma.

Já a idade é muito relativa. Há casos em todas faixas etárias, desde a adolescência até a velhice. Ângela explica que não existe nenhum estudo específico sobre o perfil econômico, social ou psicológico sobre os casos de suicídio, mas sobre o último estrato, alguns aspectos são característicos, como a desesperança citada inicialmente.

A psicóloga comenta que o suicídio está ligado aos sentimentos de desesperança e abandono, além de problemas de transtornos psiquiátricos, como quadros de depressão e ansiedade profundos. “Dependendo do pico, leva a pessoa, em segundos, a tomar a decisão que pode ser fatal ou resultar numa tentativa de baixo ou médio risco. São segundos de muita desesperança e tristeza que levam a pessoa a cometer o ato do suicídio”, avalia.

De acordo com Ângela, as causas estão associadas a alguns traços de personalidade, como impulsividade, depressão, agressão, transtorno de humor, uso de substâncias psicoativas, esquizofrenia e a perdas importantes, como do emprego e separação. “Além disso, pessoas que têm alguma dessas características psicológicas e ainda usa muito álcool ou drogas podem também delirar, ter alucinações e ouvir vozes que pedem para ter determinados tipos de ações, e aí comentem ou tentam o suicídio”, assinala.

SINAIS DE ALERTA

Psicóloga adverte que antes do ato é comum a pessoa emitir sinais de alerta, como dizer que “a vida dela não vale nada ou que era melhor morrer”. “Então, temos que tomar muito cuidado com as frases que são ditas, a mudanças bruscas de comportamento, como deixar de fazer coisas consideradas prazerosas”, ressalta.

Ângela aconselha tanto a família quanto os profissionais de saúde a não rejeitar essas queixas. “É importante nesses momentos não desconsiderar e tentar estreitar o vínculo afetivo ou familiar com essa pessoa, para fortalecer a confiança e assim preencher algumas lacunas emocionais”, sublinha.

Acolhimento da equipe médica é essencial

A coordenadora do programa Saúde Mental, da 16º Regional de Saúde (RS), de Apucarana, a psicóloga Ângela Maria Maioli Blanski, reforça que o acolhimento da equipe médica quando atende um paciente que tentou suicídio é essencial. “Durante o acolhimento devem ocorrer ações de segurança, prontidão e qualidade, pois isto pode determinar a aceitação e confiança, para o paciente ter adesão ao tratamento e dar permissão para que o profissional recrutar alguém que ele confie e possa ajudá-lo”, argumenta.

Ângela comenta que a maioria dos casos de tentativas de suicídio é atendida em serviços médicos de emergência, o que deveria ser uma excelente oportunidade para que os profissionais de saúde realizassem alguma intervenção preventiva e terapêutica no sentido de orientação para a família e ao paciente. “No entanto, nem sempre essa oportunidade é aproveitada pela equipe, que geralmente exibe condutas caracterizadas por hostilidade e rejeição ou por uma demanda grande de atendimentos de urgências nestes serviços”, diz.

A coordenadora complementa que também é comum o paciente se deparar com o despreparo ou com a dificuldade da equipe médica em lidar com este tipo de situação. “Além de oportunidades perdidas, em algumas situações, os pacientes ainda são vítimas de chacota dos profissionais e de conhecidos, que dizem que deveriam ter tomado algo mais forte. A pessoa que cometeu a tentativa está vivenciando uma dor profunda e precisa de acolhimento”, diz.

Ângela orienta o encaminhamento ao serviços de saúde disponíveis. “A essência humana está no cuidado, que é suporte para agir a dignidade e o viver do ser humano”, acredita.

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