A inteligência artificial conseguiu um feito histórico no mundo corporativo. Resolveu, em tempo recorde, aquilo que anos de workshops, treinamentos e manuais de redação jamais chegaram perto de consertar: o analfabetismo funcional institucionalizado. Aquele mesmo que produzia e-mails que pareciam enigmas, comunicados que ninguém entendia e textos capazes de ferir simultaneamente a lógica, a gramática e a dignidade humana.
De repente, como num milagre tecnológico, tudo ficou compreensível. Frases têm começo, meio e fim. Verbos concordam com sujeitos. Ideias não se atropelam como numa reunião de última hora. É quase emocionante. O colaborador que ontem escrevia como se estivesse fugindo da norma culta hoje entrega parágrafos coesos, elegantes e, pasme, inteligíveis.
Naturalmente, isso não significa que as ideias melhoraram. Apenas ganharam maquiagem de gala. O raciocínio continua, em muitos casos, tão raso quanto antes, mas agora apresentado com uma clareza impecável, o que torna tudo ainda mais perigoso. Nunca foi tão fácil dizer absolutamente nada com uma aparência tão convincente.
Ainda assim, há que se reconhecer o avanço civilizatório. A comunicação interna deixou de ser um esporte radical de interpretação e passou a cumprir sua função básica: ser entendida. O que já é um progresso considerável.
Bem. No cozer do frango, a inteligência artificial não ensinou ninguém a pensar, mas fez muita gente parecer que pensa. E, no ambiente das empresas, isso já resolve uma quantidade surpreendente de problemas.
Portanto, com toda a ironia que a situação merece: “Viva a Inteligência Artificial!”