BISPO DOM CARLOS JOSÉ

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Magnifica Humanitas: a primeira encíclica de Leão XIV sobre a Inteligência Artificial

Da Redação

| Edição de 27 de maio de 2026 | Atualizado em 27 de maio de 2026

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No contexto da celebração do 135º aniversário da Encíclica Rerum novarum, de Leão XIII, o Papa Leão XIV publicou, nesta semana, a sua primeira Encíclica: Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Inspirando-se diretamente no ensinamento social inaugurado por Leão XIII, o Sumo Pontífice volta seu olhar para um dos maiores desafios do tempo presente: a inteligência artificial e seus impactos sobre a dignidade humana. 

A Encíclica propõe uma profunda reflexão ética, espiritual e social sobre o futuro da humanidade diante do avanço tecnológico. Diante da necessidade de viver com responsabilidade a era da inteligência artificial, o Papa recorda duas imagens bíblicas: a da edificação da Torre de Babel, narrada no livro do Gênesis, e a da reconstrução das muralhas de Jerusalém, narrada no livro de Neemias. 

A imagem da Torre de Babel aparece como símbolo de uma humanidade que busca o poder e a autossuficiência sem referência a Deus. O Papa Leão XIV afirma que Babel representa o perigo de uma sociedade marcada pela uniformidade, pela ambição e pela idolatria da técnica, na qual a eficiência acaba sacrificando a dignidade humana. Nesse contexto, alerta que o desenvolvimento tecnológico, inclusive a inteligência artificial, pode tornar-se instrumento de desumanização quando não está orientado pelo bem comum e pela comunhão entre as pessoas.

A reconstrução das muralhas de Jerusalém, por sua vez, surge como imagem positiva para o tempo atual. Diferentemente de Babel, Jerusalém é reconstruída por meio da oração, da responsabilidade compartilhada e da colaboração de todo o povo. Assim, o Papa destaca que a verdadeira reconstrução da sociedade nasce da comunhão, do diálogo e da participação de todos, colocando Deus no centro das relações humanas. Nesse sentido, somos convocados: “Evitemos, portanto, a ‘síndrome de Babel’ [...] escolhamos o ‘caminho de Neemias’, que destaca o valor do trabalho conjunto para garantir a segurança da cidade de Deus aos exilados que regressavam”. 

Deste modo, o Papa propõe a construção de uma sociedade orientada para o bem comum, a partir de quatro atitudes fundamentais: 1) a relação com Deus; 2) aceitação dos limites e da fragilidade da humanidade; 3) corresponsabilidade corajosa; e 4) linguagem evangélica. Com forte tom pastoral e profético, a Encíclica Magnifica humanitas também alerta para os perigos de uma sociedade guiada exclusivamente por algoritmos, interesses econômicos e concentração de poder tecnológico. O Pontífice denuncia os riscos da desinformação, da manipulação da consciência, do enfraquecimento das relações humanas e da substituição da responsabilidade moral pela lógica das máquinas. Ao mesmo tempo, reconhece os benefícios da inteligência artificial quando orientada pelo bem comum e pela promoção integral da pessoa humana. 

Em uma das expressões mais repercutidas da encíclica, o Papa fala sobre a necessidade de “desarmar a inteligência artificial”, recordando que nenhuma inovação tecnológica pode estar acima da dignidade humana: “Desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também económica e cognitiva. Trata-se da corrida ao algoritmo mais eficaz e ao banco de dados mais vasto, com o objetivo de consolidar uma vantagem geopolítica ou comercial sobre todos os outros. Desarmar significa quebrar esta equivalência entre poder técnico e direito de governar. Não significa renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano. Significa retirá-la dos monopólios, torná-la discutível, contestável e, portanto, habitável, devolvendo-a à pluralidade das culturas humanas e das formas de vida.” Mais do que um texto sobre tecnologia, Magnifica Humanitas é um convite à redescoberta do valor da pessoa humana. O Papa Leão XIV recorda que, em meio às rápidas transformações do mundo contemporâneo, a humanidade não pode perder sua alma, sua capacidade de amar, de dialogar, de contemplar e de reconhecer no outro a imagem de Deus.