GUILHERME BOMBA

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A morte sem luto: deslize para a próxima tragédia

Da Redação

| Edição de 18 de junho de 2026 | Atualizado em 18 de junho de 2026

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Na última semana, milhares de pessoas assistiram ao mesmo vídeo.

Uma jovem se preparava para saltar de uma ponte. Havia expectativa, adrenalina, risos nervosos e a promessa de uma experiência inesquecível. Então algo deu errado. Muito errado.

Ela foi lançada sem a corda de segurança. E morreu.

A tragédia, por si só, já seria suficiente para nos deixar em silêncio. Mas não foi o silêncio que tomou conta das redes sociais. Foi o compartilhamento.

O vídeo apareceu em páginas de notícias, perfis de entretenimento, grupos de WhatsApp e timelines de pessoas que nem conheciam a vítima. Em poucas horas, a morte de uma jovem desconhecida transformou-se em mais um conteúdo entre receitas, memes, propagandas e vídeos de animais engraçados.

E talvez seja justamente isso que devesse nos preocupar.

Não a existência do registro. Não a divulgação da notícia. Mas a forma como nos acostumamos a assistir à morte dos outros.

Durante grande parte da história humana, a morte era um acontecimento cercado de rituais. Havia velórios, lutos, despedidas e momentos de recolhimento. A morte interrompia a rotina porque nos lembrava da fragilidade da vida.

Hoje, ela compete por atenção em uma tela.

Assistimos a acidentes, assassinatos, quedas, guerras e tragédias com o mesmo movimento do dedo que usamos para passar para o próximo vídeo. Em segundos, uma vida termina diante dos nossos olhos e seguimos adiante como quem troca de canal.

Não porque sejamos pessoas más.

Mas porque a velocidade da internet transformou o extraordinário em cotidiano.

O choque dura pouco. A indignação dura menos ainda.

Logo surge outro vídeo, outra tragédia, outra notícia urgente.

A morte deixou de ser apenas uma experiência humana para se tornar também um produto de consumo.

E talvez o aspecto mais inquietante de tudo isso seja imaginar a pessoa por trás da gravação. Aquela jovem tinha família, amigos, sonhos, planos para a semana seguinte. Havia pessoas que a amavam e que, provavelmente, jamais conseguirão esquecer aquelas imagens.

Enquanto isso, para milhares de desconhecidos, ela se tornou apenas “a moça do vídeo da ponte”.

Quando uma vida inteira pode ser reduzida a poucos segundos de gravação, algo importante se perde pelo caminho.

Perde-se a humanidade.

Talvez não possamos impedir que vídeos como esse circulem. Talvez nem devamos esconder os fatos. Mas podemos escolher a forma como os observamos.

Nem toda imagem precisa ser compartilhada.

Nem toda tragédia precisa ser assistida.

Nem toda morte precisa virar espetáculo.

Porque atrás de cada vídeo que viraliza existe uma cadeira vazia na mesa de alguém.

E enquanto continuarmos enxergando apenas as imagens, corremos o risco de esquecer justamente aquilo que deveria importar: a pessoa que existia antes delas.