Vivemos um tempo curioso. Ou talvez apenas barulhento demais. Mal acontece um fato e imediatamente surge a exigência: é preciso opinar. Escolher um lado. Condenar alguém. Defender alguém. Publicar algo. Dizer qualquer coisa que demonstre posição, rapidez, presença. O silêncio, nesse cenário, tornou-se quase suspeito.
Se alguém não comenta uma tragédia, um conflito ou uma polêmica do dia, logo aparece a pergunta acusatória: “Mas você não vai falar nada sobre isso?”. Como se a ausência de palavras fosse sinal de indiferença. Como se pensar exigisse, obrigatoriamente, um microfone.
A pressa em opinar é um fenômeno típico do nosso tempo. As redes sociais transformaram o comentário em reflexo automático. Não se exige compreensão profunda, nem conhecimento do contexto. Basta uma reação rápida, preferencialmente acompanhada de indignação suficiente para parecer moralmente correta.
Mas pensar nunca foi um exercício de velocidade.
A história nos mostra exatamente o contrário. Grandes reflexões nasceram do silêncio, da observação prolongada, do desconforto de não ter respostas imediatas. O pensamento verdadeiro exige algo que hoje parece raro: tempo.
Tempo para ouvir. Tempo para duvidar. Tempo para admitir que talvez ainda não entendemos o suficiente.
Opinar sobre tudo o tempo todo pode dar a sensação de participação no mundo, mas muitas vezes revela apenas ansiedade coletiva. Uma espécie de medo de ficar de fora do debate do momento. Talvez por isso o silêncio incomode tanto.
Quem não fala imediatamente parece escapar da correnteza das certezas fáceis. E isso, para muitos, soa quase como uma provocação. No entanto, há algo profundamente honesto em reconhecer que ainda estamos pensando. Nem toda tragédia precisa de comentário instantâneo. Nem todo acontecimento exige uma frase de efeito. Algumas situações pedem algo muito mais difícil do que falar: pedem respeito ao tempo da compreensão.
Hoje vi um vídeo de um homem que foi vítima de assalto dentro de um ônibus, tentou pegar o celular de volta e acabou sendo confundido com o bandido por um grupo de justiceiros. Mesmo afirmando que ele era a vítima, apanhou de um grupo de pessoas de bem, lideradas pelo criminoso que saiu ileso. No fim, muitas pessoas tem apanhado por aí, de gente boa que tem certeza demais para ouvir antes de agir. Isso não acontece só nas ruas, mas principalmente na internet, onde a tela morta do PC ou do Smartphone permite que a “opinião” e o ataque seja distribuído sem medo. É tanta certeza de gente que não sabe nada, tanta opinião contra conhecimento, tanto julgamento de quem não deveria, que o mundo ficou perigoso demais para tentar ser inteiro, já que todo mundo está quebrado.
Ainda assim, nos comentários do vídeo, o ódio agora era contra os justiceiros. Sempre há ódio, parece que precisamos demonstrar ódio, a todo custo, não importa o alvo, mas se não houve ódio, parece que não ligamos, não nos importamos, não somos os diferentes. E quem escreve primeiro, é o melhor.
O silêncio, nesses casos, não é omissão. É reflexão. E talvez uma das maiores virtudes intelectuais do nosso tempo seja justamente recuperar a coragem de dizer, com tranquilidade:
Ainda estou pensando sobre isso.