Apucarana, 17 de setembro de 1998.
Querido Miguel,
Você sempre faz perguntas grandes demais usando palavras pequenas.
“Como você está?”
Li sua carta três vezes antes de tentar responder. Na primeira, pensei em escrever “bem”. Na segunda, achei que seria mentira. Na terceira, percebi que talvez eu já não saiba exatamente o que essa palavra quer dizer.
Estou trabalhando. Tenho cumprido meus horários. Ontem ri de uma história tão boba que quase derrubei o café na mesa. Semana passada comprei um vestido novo. Domingo fiz almoço. Portanto, olhando de fora, suponho que eu esteja bem.
Mas há dias em que viver parece uma tarefa que todo mundo recebeu as instruções, menos eu.
Tenho me cansado de coisas pequenas, Miguel. Pequenas mesmo. De escolher uma roupa. De responder uma mensagem. De decidir o que comer. De entrar numa sala e imaginar, antes mesmo de alguém dizer qualquer coisa, se minha presença incomoda.
Você vai rir, mas outro dia cancelaram um almoço comigo. Disseram que surgiu um imprevisto. Respondi depressa: “Claro, não tem problema.” E não tinha. Eu sabia que não tinha. Ainda assim, passei a tarde tentando descobrir o que havia feito de errado. É ridículo, não é? Talvez não responda isso.
Tenho essa mania de procurar rejeição onde talvez exista apenas atraso, cansaço, pressa ou vida. Se alguém demora a responder, releio nossa última conversa. Se alguém fala mais baixo, imagino que esteja aborrecido comigo. Se alguém me elogia, procuro a ironia escondida. Às vezes penso que passo metade da vida tentando ser necessária e a outra metade pedindo desculpas por precisar dos outros. E o pior é que eu sei. Sei que existem pessoas que gostam de mim. Sei que minha filha me abraça como se meus braços fossem o lugar mais seguro do mundo. Sei que há gente que telefona, convida, pergunta, permanece. Tenho provas. Muitas.
Só não consigo acreditar nelas por muito tempo. É como tentar guardar água entre os dedos.
Outro dia pensei numa coisa horrível: talvez eu seja dessas pessoas que precisam ser escolhidas todos os dias porque nunca conseguem acreditar que foram escolhidas ontem. Você já sentiu isso?
A vergonha vem logo depois. Porque existe uma espécie de humilhação em precisar tanto de afeto. Então finjo que não preciso. Digo “tanto faz”, “não se preocupe”, “está tudo bem”. Virei especialista em facilitar a vida dos outros enquanto complico silenciosamente a minha.
Não escrevo isso para que tenha pena de mim. Aliás, só de imaginar você preocupado já me dá vontade de rasgar esta carta.
Rasguei duas. Esta é a terceira.
Talvez amizade seja justamente isto: permitir que alguém nos veja sem termos arrumado a casa antes.
Então não precisa consertar nada. Só me responda uma coisa quando puder: você também tem dias em que se sente estrangeiro dentro da própria vida?
Com carinho,
Clarice.
P.S.: Continuo esperando aquela receita de bolo. Espero que sua demora com ela não seja pessoal.
Epístola ficcional sobre dores emocionais invisíveis. Se este texto tocar uma ferida sua, procure ajuda. CVV: 188.