Apucarana, 31 de agosto de 2026.
Senhor Miguel,
Meu nome é Helena.
Talvez o senhor já soubesse. Mamãe escreveu que um dia lhe mandaria uma fotografia minha. Ela nunca foi tirada. Pelo menos não para o senhor.
Encontrei seu nome muitos anos depois, entre as coisas da mamãe. Ou talvez já o tivesse ouvido quando pequena, pronunciado do outro lado de alguma porta.
As primeiras cartas estavam guardadas. Da última, encontrei apenas cacos.
Mamãe tinha o hábito de escrever, rasgar e começar outra vez. Havia frases riscadas, papéis pela metade, palavras que terminavam antes do pensamento. Num deles, “tenho saudade de querer”. Em outro, dizia que não estava sendo boa com silêncios. Num pedaço menor encontrei apenas:
“Miguel, eu precisava...” E nada depois.
Junto daqueles papéis havia um comprovante dos Correios. Então soube que ela lhe escrevera novamente. Durante muito tempo tentei descobrir o que mamãe pediu naquela carta. Que o senhor viesse? Que respondesse? Que dissesse que tudo ficaria bem?
Hoje penso que talvez nem ela soubesse.
Às vezes a gente pede socorro sem conhecer a palavra socorro.
Sei apenas que ela escreveu. E eu não encontrei resposta. Por isso, preciso confessar: durante algum tempo, eu o odiei.
O senhor foi o homem que eu precisava culpar. Era mais fácil imaginar que alguém tivesse abandonado minha mãe do que aceitar que certas dores não cabem numa explicação, num culpado ou numa única ausência.
Até que, há poucos dias, decidi mover o antigo guarda-roupa do quarto dela. Não saía do lugar havia tantos anos que a parede atrás dele conservava outra cor.
Sua carta estava ali. Amarelada. Coberta de poeira. Fechada. Seu nome no remetente. O dela no destinatário. Quase dois meses após aquela última postagem.
O senhor respondeu.
Não sei quando chegou. Não sei há quanto tempo estava atrás daquele móvel. Não sei se mamãe soube que havia uma resposta tão perto dela.
Só sei que nunca abriu. Eu também não.
Passei anos tentando reconstruir a pergunta. Quando finalmente tive a resposta nas mãos, compreendi que nenhuma das duas me pertencia. Saber o que poderia ter sido não mudaria aquilo que foi.
Eu o perdoo, Miguel. E talvez essa seja a parte mais estranha de tudo: perdoo-o por algo que o senhor nunca fez. Hoje entendo que o perdão não era para o senhor.
Era para mim.
Eu não sei se o senhor estava no velório dela. Não me lembro de quase nada daquele dia, além do medo de nunca mais poder ser abraçada como eu precisava. E nunca mais fui.
A força da minha mãe era imensa quando precisava me proteger. Durante muitos anos me culpei por não ter conseguido fazer o mesmo por ela. Também precisei me perdoar por isso.
Talvez eu tenha passado a vida desejando que alguém tivesse salvado mamãe. Hoje sei que ninguém carrega sozinho a responsabilidade pela vida de outra pessoa. Mas o senhor a ouviu. E talvez, em certos dias, tenha sido justamente disso que ela precisava.
Agora também me pergunto sobre o senhor. Quanta dor havia nas cartas de Miguel que ninguém percebeu? Quantas vezes disseram que o senhor era forte quando talvez estivesse apenas cansado? Quantos silêncios seus alguém confundiu com tranquilidade?
Descobri seu endereço enquanto procurava uma maneira de enviar esta carta.
Foi então que soube que o senhor morreu há quatro anos.
Talvez tenha esperado durante algum tempo por uma resposta que nunca chegou.
Mamãe não pôde ler a sua. O senhor não poderá ler a minha. Mas eu não vou repetir o silêncio de vocês.
Escrevi. E, pela primeira vez em muitos anos, acho que posso deixar aquela carta fechada atrás de mim.
Com carinho,
Helena.
Epístola ficcional sobre dores emocionais invisíveis. Às vezes, ouvir verdadeiramente pode ser o começo de uma saída. Se algo deste texto ecoar em você, procure ajuda. CVV: 188.