GUILHERME BOMBA

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Quantos dias cabem em um texto?

Da Redação

| Edição de 13 de agosto de 2026 | Atualizado em 13 de agosto de 2026

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O despertador tocou. Não importa exatamente a hora. Há horários que, depois de algum tempo, deixam de ser números e passam a anunciar apenas que tudo vai começar outra vez. Levantar, abrir a janela, fazer café, olhar o celular, lembrar o que precisa ser feito hoje e pensar, por alguns segundos, no que ficará para amanhã.

E então o dia começa. Ou continua.

Existe uma estranha sensação de repetição na vida adulta. Não porque os dias sejam realmente iguais, mas porque aprendemos a percorrê-los quase sempre do mesmo jeito. As mesmas pressas, os mesmos caminhos, as mesmas promessas feitas no fim da noite e esquecidas na manhã seguinte.

O despertador toca. Café. Celular. Trabalho.

E alguém diz que o tempo está passando rápido demais.

É uma frase curiosa. Até onde sabemos, o tempo não recebeu nenhuma ordem para acelerar. Uma hora ainda tem sessenta minutos e um dia continua tendo vinte e quatro horas. Então, o que mudou?

Houve um tempo em que uma tarde parecia enorme. Cabia entre o almoço e alguém chamando porque já estava escurecendo, mas dentro dela existiam mundos. Uma brincadeira durava uma vida. O caminho até a casa de um amigo era uma viagem. Esperar pelo sábado exigia uma paciência quase impossível.

O tempo era maior? Ou éramos nós que ainda sabíamos morar dentro dele?

Talvez por isso algumas lembranças da infância ocupem espaços gigantescos na memória, enquanto semanas inteiras da vida adulta desaparecem sem deixar endereço. Os dias não ficaram menores. Talvez tenhamos aprendido a passar por eles depressa demais.

Até que, em um deles, alguma coisa acontece.

Nada extraordinário. Talvez duas pessoas apenas decidam limpar a casa juntas. Arrastam uma cadeira, abrem uma janela, tiram o pó dos livros. Entre um canto e outro da sala nasce uma conversa que não estava marcada em agenda alguma.

Fala-se sobre medo, sonhos, coisas que poderiam ter sido e outras que ainda podem ser. E, por alguns minutos, toda a infinitude do universo cabe naquela sala. Há algo misterioso em perceber que estamos vivendo um dia absolutamente comum que, apesar disso, nunca mais acontecerá.

Aquele chão poderá ser limpo novamente. A cadeira poderá voltar ao mesmo lugar. As mesmas pessoas talvez estejam ali amanhã.

Mas aquele instante, não.

Quantos textos cabem em um dia? E quantos dias cabem em um texto?

Há dias inteiros que depois ocupam uma frase: “Trabalhei e voltei para casa.” Há cinco minutos que exigiriam um livro. Talvez a memória não meça o tempo em horas, mas em significado.

Por isso, talvez o problema nunca tenha sido a repetição. O café pode ser o mesmo. O caminho, o trabalho e a casa também. Mas o dia não é. Nunca foi.

Nós é que, distraídos, repetimos a maneira de lê-lo.

Amanhã o despertador tocará outra vez. Haverá café, celular e coisas demais para fazer. Alguém dirá que o tempo está passando rápido demais.

Talvez esteja. Ou talvez sejamos nós.

Porque o tempo ainda deve ser aquele mesmo em que uma tarde durava o tamanho de um sonho inteiro, mesmo quando ninguém estava dormindo.

E outro texto começará. Pode até parecer o mesmo.

Mas nenhum dia se repete. Às vezes, somos nós que entramos em looping.

Ajusto a alarme do despertador e fecho os olhos. Não importa exatamente a hora.