Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, acompanhei com preocupação as imagens de cidades destruídas, famílias separadas e milhões de pessoas obrigadas a abandonar suas casas. Como economista, porém, também sabia que os efeitos daquela guerra não permaneceriam circunscritos ao território europeu. Em uma economia mundial profundamente interligada, conflitos armados atravessam fronteiras por meio dos preços do petróleo, dos fertilizantes, dos alimentos, dos seguros e dos fretes. A guerra acontece longe, mas sua conta chega rapidamente ao supermercado, ao posto de combustível e à mesa das famílias brasileiras.
Agora, a escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã volta a expor essa fragilidade. O Irã ocupa posição estratégica no mercado energético e nas rotas que atravessam o Estreito de Ormuz. Qualquer ameaça à circulação de navios nessa região aumenta a incerteza, encarece o petróleo, eleva os custos logísticos e pressiona moedas e cadeias produtivas. Em julho de 2026, novos ataques e tensões em torno do estreito demonstraram que a instabilidade continua capaz de contaminar os mercados internacionais.
Os impactos são perversos com todos. Por trás de cada ponto percentual existem pessoas concretas que sofrem as consequências econômicas dos conflitos. O Brasil encerrou 2024 com inflação oficial, medida pelo IPCA, de 4,83% e 2025 com 4,26%. No primeiro semestre de 2026, o IPCA acumulou 3,36%, chegando a 4,64% em doze meses. Embora o resultado de junho tenha mostrado desaceleração e queda no grupo de alimentação e bebidas, isso não apaga as altas anteriores nem recompõe automaticamente o poder de compra perdido.
A inflação não pesa da mesma maneira para todos. Uma família de renda elevada pode adiar uma viagem, trocar uma marca ou reduzir algum consumo supérfluo. Já uma família pobre não possui essa margem. Quando aumentam os preços do arroz, do feijão, do gás, da energia elétrica e do transporte, ela precisa escolher entre necessidades igualmente essenciais. Essa é a perversidade social da inflação: ela funciona como um imposto silencioso e regressivo, retirando proporcionalmente mais de quem já possui menos.
Os combustíveis também merecem atenção porque seus efeitos se espalham por toda a economia. O aumento do diesel não fica restrito ao tanque do caminhão. Ele alcança o preço do alimento transportado, do medicamento distribuído e do material utilizado na construção. A energia elétrica, por sua vez, atinge diretamente as residências, o comércio e a indústria. Em junho de 2026, o grupo Habitação exerceu a maior pressão sobre o IPCA mensal. Para os mais vulneráveis, a conta de luz elevada significa menos recursos para alimentação, saúde e educação.
O crescimento econômico de nada serve se não trouxer comida para a mesa, dignidade e segurança para as famílias. Em tempos de crise global e inflação alta, os governos não podem apenas comemorar números frios. Eles precisam agir de forma preventiva, responsável e com preocupação social. Isso significa usar planejamento inteligente, fortalecer a produção local e criar redes de apoio social para blindar o bolso das pessoas, evitando que a alta dos preços se transforme em fome, endividamento e exclusão no dia a dia.
Vale a pena lembrar da sabedoria popular: “melhor prevenir do que remediar”. Nos planejarmos hoje para lidar com os desafios da energia, dos alimentos, dos combustíveis e do amparo aos mais vulneráveis não é exagero ou alarmismo. É o básico da responsabilidade econômica, política e humana e nossos atores políticos precisam se sensibilizar com isso.