ROGÉRIO RIBEIRO

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Duas tempestades, uma só conta

Da Redação

| Edição de 21 de julho de 2026 | Atualizado em 21 de julho de 2026

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Todo analista deve aprender a olhar para o céu com a mesma atenção com que olha para as planilhas. Nas últimas semanas acompanhamos dois fenômenos que, à primeira vista, parecem não conversar entre si: a formação de um possível Super El Niño para o segundo semestre de 2026 e o calendário político que empurra o inevitável ajuste fiscal brasileiro para 2027. São tempestades de natureza diferente, uma climática e outra orçamentária, mas convergem para o mesmo destino: o prato e o bolso dos brasileiros mais pobres.

A nota técnica divulgada em abril de 2026 por órgãos governamentais não deixa dúvidas: a chance de o El Niño se instalar no segundo semestre é superior a 80%, com expectativa de persistir até o início de 2027. O diagnóstico é preocupante: seca na Amazônia e no norte do Nordeste, calor acima da média em quase todo o país e chuvas intensas no Sul, com risco real de eventos extremos. Não se trata de especulação: é ciência, referendada por quatro instituições de peso, que avisa o país com meses de antecedência. Tanto que o próprio Tribunal de Contas do Paraná já se antecipou, alertando os municípios sobre os riscos que se anunciam.

Já vivemos, os efeitos da guerra na Ucrânia e da escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã sobre combustíveis, fertilizantes e alimentos. Agora, some-se a isso um fator interno e sazonal, mas igualmente perverso: analistas consultados pelo Banco Central já avaliam que o El Niño pode adicionar de 0,3 a 0,8 ponto percentual à inflação em 2026 e cerca de 0,4 ponto em 2027. Frutas, verduras, carnes e laticínios devem sofrer pressão de alta, à medida que a seca no Centro-Oeste encarece a suplementação do gado e a irregularidade climática reduz safras. Há projeções de mercado que já falam em inflação de alimentos próxima de 7% neste ano. A inflação de alimentos e bebidas, segundo os próprios dados oficiais, já saltou de 0,24% para 0,74% de média mensal entre 2025 e o primeiro semestre de 2026, e o quadro tende a ficar ainda mais preocupante.

Enquanto o clima se prepara para apertar o consumo das famílias, a política se prepara para apertar o gasto público. É de conhecimento amplo que o compromisso fiscal para 2027 prevê variação real nula do gasto primário, com meta de superávit mantida sob tolerância estreita. O motivo não é segredo: 2026 é ano eleitoral, e nenhum governo, estadual ou federal, quer promover cortes impopulares às vésperas das urnas. O ajuste, portanto, fica represado para o ano seguinte, quando a conta chega inteira, de uma só vez, justamente quando os efeitos do El Niño sobre os preços dos alimentos ainda estarão se dissipando.

É essa sobreposição que deve preocupar e levar qualquer analista a alertar os agentes políticos. Quando o orçamento público se retrai no mesmo período em que os alimentos encarecem, quem paga a conta dupla são sempre os mesmos: os mais pobres, que dependem de programas sociais, tarifas subsidiadas e políticas de assistência exatamente quando esses recursos tendem a ser os primeiros cortados.

Não se trata de semear alarmismo, mas de defender planejamento. Se sabemos, com meses de antecedência, que o clima vai pressionar os alimentos e que o ajuste fiscal de 2027 é inevitável, cabe aos governos antecipar redes de proteção social, estoques reguladores e política agrícola, em vez de tratar cada crise como surpresa. Como dito no livro de Eclesiastes, atribuído ao Rei Salomão: “há tempo de plantar e tempo de colher”. Pois este é o tempo de plantar responsabilidade, para não colhermos, em 2027, fome, endividamento e exclusão entre os que menos têm.