Recentemente, assisti à apresentação de um trabalho sobre as diferenças entre ouvir e escutar. À primeira vista, o tema parecia simples, quase cotidiano. No entanto, à medida que ele avançava, tornou-se evidente as diferenças e me arremeteu a algumas reflexões sobre o cotidiano das pessoas, principalmente dos críticos de plantão. A conclusão que mais me marcou foi direta: ninguém se transforma ou aprende mais ouvindo apenas a própria voz.
Essa afirmação deveria ser colocada diante de todos nós. A liberdade de palavra é uma das mais importantes garantias de uma sociedade civilizada. Sem ela, não há debate verdadeiro, fiscalização do poder, defesa das minorias nem possibilidade de corrigir injustiças. Toda pessoa deve poder expressar suas ideias, denunciar abusos, questionar autoridades e participar da formação das decisões coletivas. Mas liberdade não é licença para irresponsabilidade. A palavra livre somente cumpre sua função social quando se submete à razão, aos fatos, às leis e ao compromisso com o bem comum.
O problema começa quando alguns transformam a palavra em instrumento de autopromoção. Falam muito, acusam com facilidade, distribuem conselhos que não seguem e apontam defeitos alheios sem examinar os próprios atos. Em vez de iluminar o debate, produzem ruído. Em vez de esclarecer, confundem. Em vez de construir soluções, alimentam ressentimentos. Pessoas públicas que agem assim não exercem plenamente a liberdade de palavra: abusam dela. Utilizam um direito coletivo como atalho para vantagens pessoais, eleitorais ou econômicas.
O mesmo rigor deve ser aplicado à organização do trabalho. O trabalho é o pensamento convertido em ação e constitui uma das principais bases da dignidade humana. Não existem profissões indignas quando exercidas honestamente. O trabalho intelectual depende do trabalho manual, e o trabalho manual também se beneficia do conhecimento, da técnica e da ciência. A sociedade somente progride quando reconhece essa dependência mútua e organiza suas atividades com justiça, competência e cooperação.
Por isso, o desemprego não pode ser tratado apenas como estatística. Ele destrói expectativas, enfraquece vínculos sociais, degrada e embrutece o ser humano. Retirar de alguém a possibilidade de participar produtivamente da sociedade é também retirar parte de sua autonomia, de sua esperança e de sua capacidade de projetar o futuro. Curiosamente, algumas pessoas públicas que mais criticam o esforço alheio talvez devessem refletir sobre o próprio distanciamento da vida produtiva. Quem apenas fala, fiscaliza de longe e vive da crítica permanente corre o risco de embrutecer-se não pela falta de inteligência, mas pela ausência de contato com o trabalho real, com suas dificuldades, responsabilidades e limites.
Uma sociedade positivista, orientada pelo conhecimento e pelo progresso, não pode aceitar nem o silêncio imposto nem a fala irresponsável. Precisamos valorizar a razão, a ciência, a educação e mecanismos legítimos de segurança, para que a população e as instituições possam progredir em paz. Segurança, nesse sentido, não é autoritarismo: é a existência de leis estáveis, controles públicos, instituições confiáveis e limites ao abuso de poder.
Devemos estar em contínua transformação, mas ninguém se transforma ou aprende mais ouvindo apenas a própria voz. A mudança exige escuta, autocrítica e, sobretudo, ação. Quem se limita a criticar, apontar falhas e dizer o que os outros deveriam fazer, sem assumir responsabilidades nem contribuir concretamente, não lidera nem constrói: apenas ocupa o espaço público com palavras.