ROGÉRIO RIBEIRO

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O ambiente também ensina

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| Edição de 24 de março de 2026 | Atualizado em 24 de março de 2026

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É comum no debate público brasileiro transformar qualquer resultado minimamente positivo em troféu de ocasião para algum governante de plantão. Quando o Paraná se destaca nas avaliações de desempenho da educação pública, logo surgem os discursos prontos, os vídeos autopromocionais, as entrevistas ensaiadas e a velha tentativa de vender o sucesso como obra de uma meia dúzia de iluminados instalados no poder. Essa leitura, além de simplista, é intelectualmente preguiçosa e injusta com a realidade.

É evidente que políticas públicas importam. Também é evidente que a organização administrativa, o planejamento, o acompanhamento das redes e a capacidade de execução produzem efeitos concretos. Negar isso seria tolice. Mas é igualmente equivocado imaginar que a qualidade da educação municipal paranaense brota exclusivamente da vontade, da genialidade ou da sensibilidade de gestores públicos. A escola não funciona dentro de uma bolha. Ela é, antes de tudo, expressão do ambiente em que está inserida.

O ambiente pesa no custo, no acesso, na manutenção das escolas e até na regularidade com que tudo funciona. No Paraná, segundo o Censo da Educação Básica de 2025, 94,7% das escolas municipais não estão em áreas de localização diferenciada. Embora pareça apenas um número técnico, ele revela uma realidade importante: a maior parte das escolas paranaenses opera em contextos menos difíceis, o que facilita a gestão e reduz obstáculos do dia a dia. Em estados como Roraima, onde esse percentual é de apenas 43,8%, os desafios territoriais são muito maiores, tornando a oferta educacional mais cara, complexa e difícil de manter.

A situação dos prédios escolares também faz diferença. No Paraná, 76,4% das escolas municipais funcionam em prédios próprios, o que traz mais estabilidade, facilita investimentos e melhora o planejamento. Não é um detalhe burocrático: quando a escola tem sede própria, a gestão do dia a dia tende a ser mais segura e organizada. Em Minas Gerais, onde esse percentual é de 51,1%, a rede fica mais exposta a fragilidades estruturais e administrativas.

Outro dado eloquente é o acesso à água potável para consumo humano. No Paraná, 95,9% das escolas municipais possuem essa condição. Enquanto isso, menos de 70% das escolas do Tocantins, de Minas Gerais e do Acre contam com o mesmo requisito. Não estamos falando de luxo, sofisticação ou inovação pedagógica. Estamos falando do básico do básico. De uma condição civilizatória elementar.

No fundo, é aqui que o debate precisa amadurecer. O bom desempenho da educação municipal no Paraná não pode ser tratado como simples fruto de propaganda oficial. Ele nasce, em grande parte, de uma construção coletiva de longo prazo, feita por famílias, pela sociedade, pelo setor privado e por instituições que ajudaram a criar um ambiente mais estável e favorável. Há mérito na gestão, sem dúvida. Mas esse mérito não atua sozinho: ele depende de um ecossistema social, econômico e institucional que faz muita diferença no resultado final.

Mais importante do que repetir slogans ou distribuir méritos apressados é fazer a pergunta certa: quanto da qualidade da educação vem, de fato, da gestão, e quanto nasce das condições sociais, econômicas e estruturais que cercam a escola? Esse é um debate que precisa ser feito com seriedade, sem vaidade e sem propaganda. Porque, no fim das contas, resultados consistentes não são obra de salvadores ocasionais, mas de uma construção coletiva, silenciosa e duradoura. E reconhecer isso é o primeiro passo para discutir educação com mais responsabilidade e menos ilusão.