No Brasil, parte do debate político foi sequestrada por uma lógica infantil, barulhenta e improdutiva: a necessidade de escolher um lado como quem escolhe um time de futebol. Não importa mais o conteúdo, a coerência, o resultado ou a política pública defendida. O que importa, para muita gente, é gritar “sou de esquerda” ou “sou de direita” e, a partir daí, passar a justificar qualquer absurdo cometido pelo grupo de estimação.
O partido não substitui o sistema, e as ideias ou atitudes de políticos isolados não representam um verdadeiro projeto de sociedade. Basta olhar com um mínimo de honestidade intelectual para experiências internacionais. Em países como Finlândia, Islândia e Dinamarca, frequentemente citados como referências de bem-estar social, educação de qualidade e instituições equilibradas, existem modelos marcados por forte presença de políticas públicas, proteção social e compromisso coletivo. Na caricatura brasileira de hoje, muita gente classificaria tudo isso apressadamente como “coisa de esquerda”. Mas, nesses contextos, o foco recai sobre propósito, lógica, resultado e qualidade da ação estatal.
No Brasil, os conceitos foram sendo deformados até virarem caricaturas. A esquerda, para uns, virou sinônimo automático de desordem, preguiça e permissividade. A direita, para outros, passou a funcionar como salvo-conduto moral, como se bastasse se declarar conservador para receber atestado automático de responsabilidade, eficiência e ética. Enquanto isso, a vida real segue sendo empurrada para o canto. E é aí que aparece o problema mais grave: quando a política deixa de ser instrumento de cuidado da sociedade e passa a ser apenas palco de disputa identitária, autopromoção e conveniência eleitoral.
O retrato disso está em cenas que se repetem pelo país. Há governantes e grupos políticos mais preocupados em inaugurar placa, explorar narrativa, acumular curtidas e transformar a máquina pública em vitrine pessoal do que em resolver o problema concreto das pessoas. Em vez de política pública orientada para proteger, prevenir e servir, o que se vê muitas vezes é uma política ornamental, de fachada, feita para aparecer e não para cuidar.
Grande parte da população, infelizmente, também alimenta esse ciclo. Não defende uma boa educação: defende um governante. Não defende responsabilidade fiscal com justiça social: defende um líder. Não defende segurança, desenvolvimento, saúde pública de qualidade ou combate à pobreza: defende nomes, rostos, slogans e narrativas de conveniência. Quando isso acontece, a crítica desaparece, a coerência morre e a mediocridade se instala. O erro de uns é relativizado enquanto o acerto de outros é negado por puro reflexo de torcida.
O sistema político brasileiro e a fragmentação partidária, frequentemente impede que governos atuem com clareza programática. Isso cria um ambiente em que quase tudo vira barganha, acomodação, sobrevivência e cálculo eleitoral. Mas essa realidade, embora grave, não absolve governantes de sua missão central nem a sociedade de sua responsabilidade crítica.
O Brasil só começará a amadurecer politicamente quando trocar a idolatria pela cobrança, o fanatismo pela razão e o culto à personalidade pela defesa de políticas públicas consistentes. Política não existe para satisfazer vaidades, sustentar mitologias ou servir de ringue ideológico. Política existe para cuidar da sociedade. Quem defende político acima de política está errado. E quem governa sem compreender que o centro da ação pública deve ser a vida concreta das pessoas já perdeu de vista a razão de estar onde está.