ROGÉRIO RIBEIRO

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O preço da incerteza

Da Redação

| Edição de 05 de maio de 2026 | Atualizado em 05 de maio de 2026

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Há um tipo de ilusão econômica que sempre retorna ao debate público brasileiro: a ideia de que a inflação pode ser explicada por uma única causa. Para alguns, tudo se resume ao gasto público. Para outros, tudo decorre da ganância empresarial. Há ainda os que enxergam apenas o dólar, o petróleo, os juros ou a política internacional. A realidade é menos confortável. A inflação brasileira atual é resultado de uma combinação de fatores internos e externos.

A ata do Copom deixa evidente que o cenário deixou de ser apenas difícil para se tornar perigosamente incerto. Os conflitos no Oriente Médio, especialmente após os ataques ao Irã, recolocaram o petróleo no centro das preocupações econômicas. E não se trata de uma ameaça distante, abstrata ou apenas diplomática. O preço do petróleo já começou a impactar os preços internos. Combustíveis, fretes, alimentos, fertilizantes, energia, produtos industriais e expectativas de inflação passam a ser contaminados por esse movimento. O barril sobe lá fora, mas a conta chega aqui dentro.

Esse é o primeiro ponto que precisa ser compreendido com seriedade. Países como o Brasil não controlam o preço internacional do petróleo, não controlam a guerra no Oriente Médio e não controlam a reação dos grandes investidores globais diante da incerteza. Quando o risco aumenta, o capital busca proteção, o câmbio fica mais pressionado e os preços domésticos recebem novos choques. A política monetária brasileira, portanto, passa a ser influenciada por uma guerra que não nasceu aqui, mas cujos efeitos atravessam nossos postos de combustíveis, supermercados, contratos e orçamentos públicos.

O Copom decidiu reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual, levando a taxa básica de juros para 14,50% ao ano. O corte existe, mas é pequeno. E é pequeno porque o Banco Central sabe que a inflação segue acima da meta, as expectativas continuam preocupantes e os riscos aumentaram. Não houve festa monetária. Houve apenas uma calibragem cautelosa. A taxa continua elevada, restritiva e pesada para famílias, empresas e governos.

Há, contudo, uma contradição incômoda: a atividade econômica já perdeu ritmo. O crédito desacelerou, setores mais sensíveis aos juros enfraqueceram e o consumo sente os efeitos de uma política monetária restritiva por tempo prolongado. Isso ajuda a conter a inflação pela demanda, mas cobra seu preço: menor produção, menor dinamismo empresarial e queda na arrecadação pública. Com menos receitas, União, estados e municípios perdem capacidade de financiar saúde, educação, assistência social, infraestrutura e demais políticas públicas.

Esse é o tipo de problema que raramente cabe nos discursos fáceis. Juros altos combatem inflação, mas também reduzem crescimento e arrecadação. Petróleo caro pressiona preços, mas também limita o espaço para queda dos juros. A inflação corrói a renda dos mais pobres, mas a desaceleração econômica também atinge o emprego, os investimentos e a capacidade do Estado de responder às demandas sociais. Não há solução mágica. Há escolhas difíceis.

A inflação de serviços segue resistente porque depende do mercado de trabalho, da renda e da demanda interna. Como os serviços não são facilmente importados ou estocados e utilizam muita mão de obra, o desemprego baixo e a renda ainda aquecida dificultam a queda dos preços. O controle inflacionário não depende apenas do Banco Central. Exige responsabilidade fiscal, eficiência do gasto público, produtividade, segurança jurídica e coordenação institucional. Quem ignora inflação, guerra, petróleo e arrecadação acaba pagando mais caro depois.