TIAGO CUNHA

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Quando a linguagem se torna inimiga da inovação

Da Redação

| Edição de 22 de junho de 2026 | Atualizado em 22 de junho de 2026

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Antes de ser uma palavra da moda, a inovação sempre foi uma forma de resolver problemas e gerar valor. No entanto, quanto mais o tema ganhou espaço nas empresas, universidades e eventos, mais ele parece ter se afastado das pessoas. Nunca se falou tanto sobre inovação. Ao mesmo tempo, nunca foi tão comum encontrar profissionais, gestores e empresários que enxergam esse assunto como algo distante e complexo.

É comum atribuir essa dificuldade à falta de recursos, ao medo de errar ou à resistência das equipes. Esses fatores existem. Mas existe outro obstáculo que recebe menos atenção. A forma como escolhemos falar sobre inovação.

Ao longo dos anos, criamos uma linguagem própria. Termos em inglês, siglas e conceitos técnicos passaram a ocupar reuniões, apresentações e estratégias. Design Thinking, Sprint, MVP, Open Innovation e tantos outros conceitos fazem parte do cotidiano de especialistas. O problema não está nas ferramentas. O problema começa quando a linguagem se torna mais importante do que a compreensão.

Em muitos casos, a comunicação produz uma espécie de miopia. As pessoas passam a acreditar que inovar é algo difícil, caro e reservado para poucos. Aos poucos, a inovação deixa de ser percebida como uma capacidade que pode ser desenvolvida por qualquer organização e passa a ser vista como responsabilidade de consultorias, laboratórios ou departamentos específicos.

Existe uma contradição nesse processo. A inovação deveria aproximar pessoas, estimular a colaboração e ampliar a participação. No entanto, a linguagem excessivamente técnica produz o efeito contrário. Em vez de criar pontes, cria barreiras. Em vez de despertar curiosidade, gera insegurança. E, em alguns casos, parece que certos termos foram criados mais para impressionar do que para serem compreendidos.

Talvez tenhamos confundido conhecimento com complexidade. Talvez tenhamos confundido sofisticação com excesso de palavras difíceis. Afinal, se uma metodologia precisa ser traduzida para que as pessoas consigam entendê-la, talvez o problema não esteja nas pessoas, mas na forma como estamos transmitindo o conhecimento. A boa notícia é que esse cenário pode ser mudado.

O primeiro passo é simplificar a linguagem. Conceitos importantes devem ser explicados de forma clara e conectados à realidade das pessoas. O segundo é substituir apresentações cheias de jargões por exemplos práticos e problemas reais. As pessoas aprendem melhor quando conseguem visualizar a aplicação do conhecimento. O terceiro é criar ambientes onde perguntar não seja motivo de constrangimento. Uma cultura da inovação depende da troca de ideias e da aprendizagem contínua. O quarto é lembrar que inovar não é responsabilidade de um setor. É uma capacidade coletiva. Pequenas melhorias, novos processos e soluções simples também são inovação.

Talvez uma das maiores barreiras para construir uma cultura da inovação não esteja na falta de criatividade ou de recursos. Talvez ela esteja na forma como nos comunicamos. Porque ninguém coloca em prática aquilo que não consegue compreender. E talvez o primeiro passo para inovar seja justamente tornar a inovação mais simples, mais próxima e mais humana.