Na manhã de 6 de agosto, o repórter sergipano Aécio Amado, então com 35 anos, despertou antes do sol nascer. Às 5h, já estava na redação da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, preparado para um novo desafio: a estreia no programa Revista Nacional, que seria transmitido para todo o Brasil.
Em sua rotina, era comum carregar uma pilha de fichas telefônicas, um pesado gravador de fita, bloco de anotações e canetas. Ele investigava o que ocorria no trânsito e nas delegacias. E, mesmo em um Rio de Janeiro diferente, naquele "inverno" quente de 1986, as notícias não faltavam.
Na estreia do programa, Aécio deixou o nervosismo de lado ao ouvir o chamado do apresentador goiano Valter Lima, também de 35 anos, direto de Brasília. Acompanhou as notícias do país na voz dos colegas. O Revista Nacional passaria a se chamar Revista Brasil em 1998, mantendo a proposta de informações instantâneas, aprofundadas e entrevistas de duas horas.
Vida de reportagem
Quarenta anos depois, já aposentado, Aécio relembra que o cotidiano na rádio sempre foi repleto de emoções fortes, como em 1988, na véspera do Ano Novo, quando cobriu o naufrágio do navio Bateau Mouche IV, que resultou na morte de 55 pessoas na Baía de Guanabara.
“Foi marcante e muito triste. Quando cheguei, o portão do Salvamar, da Marinha, estava aberto. Vi os corpos chegando nas lanchas”. O programa começou às 8h da manhã, mas ele já havia passado a noite em claro com as notícias tristes. “Faz parte da vida do repórter”, afirma.
Duas horas sem parar
Valter Lima, que liderou o programa por quatro décadas, conhece bem essa realidade. Contratado para desenvolver um “projeto inovador” que priorizasse informação e dinamismo, ele ficou conhecido por madrugar no estúdio para dar notícias em primeira mão.
“A proposta era usar a rádio como veículo de aprofundamento das questões políticas, econômicas, sociais, internacionais e humanísticas”, afirmou Lima. O programa era transmitido não só de Brasília, mas também do Rio de Janeiro e do Amazonas. “Mais de 200 emissoras ao vivo transmitiam desde o começo”.
Um dos primeiros desafios foi traduzir ao público as discussões dos parlamentares para a formulação da Constituição de 1988. Lima recorda que tinha acesso a diferentes fontes de informação, participando, antes de 1985, do Movimento das Diretas Já.
Na Amazônia, outro desafio foi a cobertura da primeira epidemia do cólera no país, em 1991. A equipe se deslocou para registrar o problema. No ano seguinte, a cobertura da “Eco 92”, Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, também foi histórica.
“A equipe do Revista Brasil sabe da responsabilidade de veicular conteúdos a partir de uma emissora pública, pois esse material é replicado dentro e fora do Brasil graças à credibilidade que construímos. Não podemos falhar”. Desde o início, o programa alcançava mais de 30 milhões de pessoas.
A chacina da Candelária, em julho de 1993, quando oito crianças e adolescentes foram mortos no centro do Rio, também sensibilizou o jornalista. “Essa história tocou no coração da gente”. Ele lembra os detalhes ao receber as primeiras notícias dos jovens.
Vozeirão
A juventude sempre foi um tema caro ao apresentador. Ele recorda quando saiu de Anápolis (GO) para tentar a vida em Brasília. Alistou-se como soldado da Aeronáutica e fazia bicos de locutor na rodoviária. Em um desses anúncios, diretores de rádio se interessaram por sua voz potente.
“Queria ganhar um dinheirinho para estudar”. Logo, estava na Rádio Alvorada. Depois, para a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), foi um pulo. Finalmente, teve a carteira assinada. Mais do que o sucesso profissional, orgulha-se de ter sido ouvido na rádio de pilha pelo pai, Adão, pedreiro, e pela mãe, Dalva, ambos já falecidos.
“Fico orgulhoso de ser parte da história da comunicação pública”.
Nos bastidores
Nem todos que se dedicam à rádio foram aos microfones. A produtora Fátima Araújo chegou à empresa em 1977, começando como auxiliar administrativa da Rádio Nacional da Amazônia. Logo, passou a entrar nos estúdios, recebendo cartas dos ouvintes para serem lidas no programa.
Chegava de tudo, inclusive cartas perfumadas com talco ou objetos de recordação - informações, pedidos e sugestões de pautas. “O Valter chegava muito cedo. Antes de todos. Acendia e apagava as luzes da rádio à noite”.
A internet mudou a interação desde o final dos anos 90. As cartas perfumadas deram lugar a e-mails que lotaram a caixa de entrada e “a mensagens o tempo inteiro”. “Mas a correria nunca mudou”, diz a produtora.
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Com informações da Agência Brasil