O país vive um momento histórico, por bons e maus motivos. Nas últimas semanas, a senhora fez afirmações que destoam da realidade que a maior parte do povo, escandalizado, testemunha. Escrevo esta carta para lembrá-la de que cidadãos brasileiros não mais ficam calados diante de atitudes que os desrespeitem. E faço aqui uma sugestão sincera que, desconfio, ainda não fizeram à senhora, nem mesmo seus amigos verdadeiros.
A senhora critica o fato de Eduardo Cunha ter encaminhado o pedido de impeachment e questiona a credibilidade do ato. Presidente, o pedido de impeachment não é de Cunha. É da sociedade brasileira.
Ele foi redigido por três advogados que apontam claramente todos os crimes de responsabilidade pelos quais a senhora será julgada. O pedido também foi assinado por representantes de movimentos sociais que levaram e continuam levando milhões de brasileiros às ruas.
Como presidente da Câmara, Cunha apenas encaminhou o pedido, e o fez tardiamente, devido a barganhas políticas que tem feito há meses com o seu governo.
A senhora também tem afirmado que impeachment é golpe. Gostaria de lembrá-la que é um instrumento constitucional e, consequentemente, democrático.
Golpe, presidente, é usar dinheiro do povo para fins eleitorais e populistas. Golpe é mentir a milhões de brasileiros sobre a situação real do país e inventar inexistentes crises globais para conquistar votos.
Golpe é gastar mais do que o autorizado e descumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal, como sentenciou o TCU (Tribunal de Contas da União). Golpe é não respeitar a independência entre os poderes. Golpe é mentir e continuar mentindo.
O Congresso vai julgar se foram ou não golpes seus atos dos últimos anos. Também decidirá se seria golpe a roubalheira na Petrobras, não apenas na época em que a senhora foi ministra, mas também quando foi presidente do Conselho de Administração da empresa, diante de tantos escândalos de propina comprovados na Operação Lava Jato.
Não, impeachment não é golpe, presidente. Também não é terceiro turno, pois o povo não votará. Se votasse, a senhora não estaria nem no páreo. E se impeachment fosse golpe, o PT seria o partido mais golpista da história brasileira, pois defendeu a destituição de Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique. Pergunte ao Lula sobre a participação dele em cada processo.
Para finalizar esta carta, trago minha sugestão. A ética pública, em nível tão baixo, por vezes pode ser restituída por um ato de muita, muita coragem. A senhora se diz uma mulher de coragem. Por que não usá-la neste momento tão crucial?
Há duas possibilidades. Uma delas é a renúncia. Renuncie à presidência e devolva a dignidade ao país. Renuncie também ao PT.
Ainda há tempo, presidente, de se desligar desse grupo e ajudar o Brasil nessa marcha ética. Enquanto estiver junto a pessoas envolvidas em escandalosa corrupção e tráfico de influência, não poderá estar ao lado da ética.
A outra possibilidade, presidente, é permitir que o processo de impeachment já transitando no Congresso Nacional trilhe os caminhos da lei e da ordem democrática. Sem interferir em outros poderes.
O povo não aguenta mais tanta incompetência, enganação e corrupção. Faça isso, presidente Dilma, em nome de sua história, que tanto a orgulha. O Brasil agradecerá.