OPINIÃO

min de leitura - #

Ser paciente na velhice

Thadeus Palka

| Edição de 24 de julho de 2016 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

Fique por dentro do que acontece em Apucarana, Arapongas e região, assine a Tribuna do Norte.


Com certeza muitas pessoas tiveram a oportunidade de assistir tempos atrás no “facebook” uma cena em que o pai e o filho estão sentados num banco jardim da casa. O pai idoso imerso em algo indefinível e doente e o filho lia o jornal.
O cenário é simples e comum. Nesse ínterim, um pequeno pássaro pousa no arbusto próximo e canta. O homem parece despertar e indaga: “O que é aquilo? Apontando com o dedo na direção da pequena ave. O rapaz alça os olhos e diz, secamente: É um pardal. A avezinha saltita de um galho a outro e a pergunta se repete: “Ö que é aquilo”?”. A resposta agora não é somente seca, mas também denotando enfado: “Já disse, é um pardal?”. O pássaro voa do arbusto para a árvore, continuando na sua dança matinal. O que é aquilo? Soa de novo. Agora, o rapaz se irrita e quase grita: “É um pardal”. A ave, feliz, prossegue no seu bailar. Alça voo e parece desaparecer. Poucos segundo passados e retorna ao chão, bicando aqui, saltitando acolá. O homem leva a mão aos olhos, como se desejasse ajustar a visão embaçada e, com natural curiosidade pergunta: “O que é aquilo?” O filho responde em altos brados: “É um pardal! Já disse: um pardal”. E soletra, aos gritos: p-a-r-d-a-l. Você não entende?
O homem se ergue, sobe os degraus, adentra a casa, lento e decidido. Pouco depois, retorna com um velho caderno nas mãos. A capa é bonita, denotando que foi guardado com cuidado, como se guardam preciosidades. Abre-o, procura algo, depois o entrega ao rapaz, ainda inquieto e raivoso. Leia! – ele pede. E acrescenta: Em voz alta! Há surpresa no moço que lê pausada e cada vez com maior emoção: “Hoje, meu filho caçula, que há uns dias completou três anos, estava sentado comigo, no parque, quando um pardal pousou na nossa frente. Meu filho perguntou 21 vezes o que era aquilo e eu respondi em todas as 21 vezes que era um pardal!” Eu o abracei todas as vezes que ele repetiu a pergunta, vez após vez, sem ficar bravo, sentindo afeição pelo meu inocente garotinho.
Então, o filho olha o pai. Há culpa e dor em sua alma. Abraça-o, lacrimoso, beija-lhe a face emoldurada pela barba por fazer. Estreita-o, puxando-o para perto de si. E assim ficam: um coração ouvindo outro coração.
Vejam, a que nos leva essa narrativa tão significante, senão a entender que começamos a vida como crianças e terminamos como crianças, ou melhor, nada obstante o lapso de tempo de nossa vivência. Assim, fatores outros levarão as pessoas como o Mal de Alzheimer, demência senil ou problemas outros, voltam a indagar, perguntar e questionar e é o dever de todos a entender esse estado de coisas que é natural quando os anos avançam.
É a dureza da vida quando a pessoa chega nesse estágio de dependência e, onde, a paciência, a tolerância e amor devem estar presentes nas pessoas que rodeiam o idoso. O idoso merece o cuidado todo especial e não ficar à margem da boa vontade de quem quer que seja e se um filho é o que é porque teve um pai amoroso e paciencioso e que dedicou todas as forças para dar o melhor que podia ser dado para que tivesse uma vida boa e honrada. Assim, se as lágrimas umedecem os olhos, não tenhamos vergonha de abraçar com todo amor e carinho nosso querido velho, mãe, vovó, vovô, madrinha, tia o quanto antes. (Texto do site “Reflexão”, com base na história curtíssima “O que é aquilo?” de Constanti Pilavios, da Movie Teller Films).