Calma querido leitor, o meu título parece de um blog de tecnologia, mas é apenas um trocadilho para o que vou lhe contar. Entre 2007 e 2008, eu trabalhei em uma empresa de call center e, sem falar mal da profissão, paguei muitos pecados ali. A maioria dos meus colegas de trabalho eram jovens esperançosos, que pouco a pouco ruíam diante dos clientes pouco educados, o que gerava um ciclo de agressões e tensões. Ainda assim, não quero falar do mundo do trabalho, mas daquilo que vivi e hoje ressignifico.
A Nokia, que havia sido a queridinha por mais de uma década, começava a rivalizar com a gigante Motorola e sua linha V (V3 com muitas cores, V8 dourado de playboy), LG que ainda lançava aparelhos de ponta, como a linha “Shine” toda em aço escovado. Quando eu estava prestes a sair, surgia o interesse pelo primeiro Iphone, da empresa conhecida por seus Ipods e computadores. Samsung era a irmã da Cinderela no começo do filme, muito potencial e nenhum apreço. Eu vi, surgir a tecnologia do GSM (chip), melhorias das câmeras e do aumento da capacidade de armazenamento de nossas músicas em MP3.
Nessa época, morando em Londrina e minha então namorada em Apucarana, como as ligações eram demasiadamente caras e os SMS (mensagens de texto) limitados, usamos as cartas como principal meio de comunicação. Era lindo. Claro que ficávamos ansiosos pela resposta aos sentimentos escritos em papel sulfite ou de caderno, com uma bela borrifada de perfume, mas era mágico ter algo em mãos que viesse dela. Temos todas guardadas. A popularização da internet nos anos seguintes – não digo criação, digo popularização, pois apenas uma pequena elite podia arcar com os pulsos da internet discada – tornou o caminho mais fácil.
O que vemos hoje é um mundo conectado, ao ponto de não termos mais a distância como um inimigo. Entretanto, refletindo sobre isso, me coloco a pensar que nunca estivemos tão distantes. Não quero ser aqui o porta-voz do apocalipse tecnológico, já que envio esse texto via WhatsApp (em Word, para mostrar profissionalismo) para minha editora, mas é notório que adoecemos em poucos anos com a incapacidade de esperar, de se esconder e de estarmos realmente presentes em um ambiente cheio de pessoas. A evolução é necessária e sempre bem-vinda, mas o que fazemos dela é o problema. Nem quero voltar no assunto das Fakes News, já falei demais disso. Tenho nas redes sociais – e olha que são pelo menos quatro – milhares e milhares de “amigos”, mas me afastei da maioria dos que cresceram comigo, ainda que constantemente prometamos nos encontrar para um churrasco que nunca sai.
A Nokia mentiu quando disse em seu slogan: “Connecting People” – que em tradução livre, significa “Conectando Pessoas”. Tenho ainda o mesmo número desde 2003, iniciado com 999 (eram dois, mas explico isso depois) que demonstra que é bem velho, mas não faço mais ligações e só as recebo de cobranças de SP ou BH. Porém, talvez ela não tenha mentido e por isso (quase) desapareceu. Temos tantas tecnologias em câmeras, coisa que antes vinha separado na Cyber Shot da Sony, ou nos primeiros aparelhos da Sony-Ericsson com baixíssima resolução, que tiramos mais fotos do que podemos ver ou postar.
Temos fotos e vídeos demais para termos prestado atenção real no que estava acontecendo quando os fizemos. Por fim, lembro com muito entusiasmo, da notícia de que um dia poderíamos conversar por videoconferência com pessoas em qualquer lugar do mundo, mas não sabia que nos custaria deixar de olhá-las nos olhos. Nokia, minha linda, a culpa é toda minha e de quem fez mal uso dos seus avanços, mas bem que podia ter ficado só no jogo da “cobrinha”, pelo menos eu tinha que ir mostrar os meus resultados. Não dava para mandar.