Meio século dedicado à Igreja Católica. A expressiva marca foi comemorada neste mês pelo padre Pedro Beltrami, que passou a maior parte desse tempo como pároco da Paróquia Nossa Senhora da Glória, em Novo Itacolomi. Hoje morando em Apucarana, ele coleciona histórias da época, como quando precisou sacar um revólver para se defender ou quando foi jurado de morte nos preparativos de um casamento. Os 50 anos de sacerdócio renderam, inclusive, o reconhecimento do Papa Francisco.
Hoje morando em Apucarana, Pedro Beltrami nasceu em Paranapanema (SP) em 29 de junho de 1936. Mesmo jovem, ele afirma que a vocação para ser padre já era sentida quando era coroinha. “Eu ia para as missas incentivado pela minha mãe e, desde pequeno, já sentia que deveria ser padre”.
Ordenado padre após estudar em seminários de Botucatu e Belo Horizonte, o então jovem padre veio para Apucarana em 1969, após protagonizar um episódio peculiar. “Um ano antes, o escolhido para assumir como arcebispo em Botucatu tinha ideias que muitos não compactuavam. Com isso, 27 padres se rebelaram na arquidiocese e se recusaram a continuar lá. No ano seguinte, todos eles foram embora. Dom Romeu Alberti havia acabado de se tornar bispo de Apucarana e tinha boa relação com todos. Por isso, 12 desses padres rebelados vieram para cá, entre eles o monsenhor Roberto Carrara e eu”, conta.
Padre Beltrami tornou-se então o primeiro pároco de Lunardelli, cidade que hoje é conhecida pelo Santuário de Santa Rita de Cássia. “Esse foi um grande desafio para mim. Saí de uma região bem desenvolvida, como era o interior de São Paulo, para um município jovem, que não tinha nem luz elétrica. Mas foi um período muito bom na minha vida”, recorda.
De memória afiada mesmo aos 79 anos, padre Pedro Beltrami lembra de quando evitou um assalto por portar um revólver. “Recebi de presente um revólver calibre 22 quando me mudei de São Paulo para cá. Logo que cheguei em Lunardelli, precisei ir a uma reunião em Ivaiporã e levei a arma. Na volta, um homem me pediu carona. No meio da viagem, ele encostou um porrete nas minhas costas e disse que o carro ficaria ‘melhor nas mãos dele’ do que nas minhas. Forcei um solavanco do carro com um movimento rápido da embreagem e, aproveitando a distração dele, saquei o revólver. Mandei ele sair correndo, o que ele prontamente fez, depois que eu disse que estava com uma ‘coceira no dedo do gatilho’”, diverte-se ele.
NOVO ITACOLOMI
A vida de sacerdócio foi interrompida por dois anos, quando ele foi diagnosticado com tuberculose, em 1971, e precisou se tratar em Franca (SP). No retorno, assumiu a paróquia de Novo Itacolomi, onde ficou por 37 anos e meio. “Foi um período muito bom, mas não sem alguns poucos problemas. Me lembro de um homem que queria se casar, mas não queria fazer os encontros de casais. Eu disse a ele que todos precisam passar pelos encontros, e ele não gostou, chegando inclusive a me ameaçar de morte. Mas no final não teve jeito e ele teve que fazer” conta.
O padre é lembrado com carinho pelos fiéis, como a professora aposentada Carina Couto, que mora em frente à casa paroquial de Novo Itacolomi. “A trajetória dele na comunidade foi algo muito bonito. O padre Pedro sempre foi muito presente na vida das pessoas, deixando muitas marcas positivas na paróquia”, afirma.
A comemoração das cinco décadas de sacerdócio foi realizada no início do mês, em celebração seguida por jantar que reuniu 800 pessoas. Até mesmo o papa Francisco reconheceu o trabalho e a dedicação do padre, enviando uma Bênção Apostólica com o selo do Vaticano e assinatura do Sumo Pontífice, honraria ofertada a um número mínimo de sacerdotes da Igreja.