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Agricultura e floresta dividindo espaço

Ivan Maldonado

| Edição de 09 de setembro de 2018 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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Um sistema de cultivo alternativo, com maior destaque para conservação e recuperação do solo e diversidade de culturas, o Sistema Agrofloresta (SAF) começa a ser implantado no Vale do Ivaí. A prática, ainda tímida, vem sendo adotada há três anos pelo casal Elizete e Gottfried Jauer no assentamento 8 de abril, em Jardim Alegre. 

Imagem ilustrativa da imagem Agricultura e floresta dividindo espaço


A experiência está sendo tão bem sucedida que o casal que iniciou a dinâmica em uma pequena área de um quarto de alqueire, começa ampliar o sistema. 
Conforme Elizete, a Agrofloresta é interessante para agricultura familiar porque traz vantagens econômicas, sociais e ambientais, já que é um sistema que combina árvores frutíferas e produção de madeira com plantio de alimentos de ciclo curto, tudo na mesma área, permitindo colheitas, desde o primeiro ano da implantação. 
“Ainda não está sobrando, mas apesar de ser uma área pequena, hoje temos tirado o sustento dos nossos cinco filhos daqui. As contas estão pagas, então daqui para frente vai começar a sobrar alguma coisa”, comenta. 
Caminhando pela área, o visitante identifica a grande variedade de plantas, desde grandes árvores, trepadeiras, hortaliças, mandioca, café e até plantas alimentícias não convencionais (PANC’s). “Pode parecer uma bagunça, uma mata sem interferência do homem, mas tudo aqui tem planejamento para conservar água, enriquecer o solo e dar sombra para as plantas. A folha e o tronco da bananeira, por exemplo, vão servir de adubação”, relata Jauer.
Além de legumes e verduras, o casal também produz na área as plantas não convencionais, tais como, araçá do campo, araruta, língua de vaca e ora-pronopis. Dentre as frutíferas, o casal tem pitanga, banana pera, maçã, figo, nectarina, lichia, ameixa, caqui, noz pecan, e muitas outras. “Então aqui tem coisa para colher agora, tem coisa que vai para a colheita daqui a um mês e outras coisas que vamos começar a colher daqui uns oito anos”, comenta Elizete. 
Segundo Jauer todos os dias há algum alimento para a família consumir ou para a comercialização. “É um projeto indeterminado, infinito. Daqui cem anos, quando só existirem meus netos, essa peroba aqui vai estar grossa”.  Além de peroba, a área tem ainda outras espécies madeireiras, como pau-brasil, canafista, gurucaia, pau-ferro, dentre outras. 
O engenheiro agrônomo Paulo Lizarelli, coordenador estatual da área de agroecologia, destaca a importância dos sistema agroflorestal como alternativa para agricultura. “Hoje a Agrofloresta é conceituada como a mais conservacionista, a mais agroecológica, pois tem uma auto regulação, que acontece ao logo do tempo pelos arranjos ecológicos que vão se refazendo. Na verdade, é uma imitação de como era a mata natural, para aproveitar a luz, a umidade e os nutrientes naturais”, argumenta. 
Para Lizarelli, a agrofloresta é também um espaço prático e pedagógico para os agricultores aprenderem e implantarem as práticas agroecológicas. “Porque não se faz a agrofloresta sem biodiversidade, que é um dos princípios agroecológicos. A sucessão de cultivares, os consórcios, o manejo da matéria orgânica que é o cerne de tudo para movimentar a produção de uma forma natural”. 
Ainda conforme Lizarelli, com o sistema, o produtor consegue aliar a produção de alimentos com conservação de meio ambiente, evitando, a erosão, fazendo a ciclagem de nutrientes e sem utilização de agrotóxicos e nem adubos químicos. “O que dá uma segurança alimentar e nutricional para a família do produtor e para os consumidores. Ao longo do tempo, aumenta renda, tanto pela diminuição dos custos de produção como pelo comércio. Ainda mais, por ser um produto orgânico, que é um produto mais valorizado”.

Investimento não é alto
O casal, que já obteve a certificação orgânica Ecovida,  entrega seus produtos a uma cooperativa de produtores orgânicos de Nova Tebas e também nas escolas, através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).  
Por conta dos resultados, eles estão ampliando a área de agrofloresta para um alqueire, mas o planejamento para os próximos anos é praticar a dinâmica na área total do sítio, que tem 10 alqueires. 
Para Gottfried Jauer, o SAF é um projeto que com pouco custo pode melhorar a vida do agricultor. “Se eu for produzir soja em um alqueire hoje, eu preciso de R$ 8 mil de investimento e talvez eu tire esse valor com lucro. Mas se der um contratempo, eu tenho que pagar esse valor para o banco, saia de onde sair. Com a Agrofloresta, eu não gasto mais nada. Vou colher este ano, ano que vem e daqui 50 anos”, completa.