A falta de segurança e os assaltos recorrentes têm feito com que funcionários dos Correios do Vale do Ivaí trabalhem com medo. Conforme levantamento do Sindicato dos Trabalhadores nos Correios no Paraná (Sintcom-PR), somente no primeiro semestre, 13 assaltos foram registrados em nove unidades da região, quatro delas foram assaltadas duas vezes. O problema não é local. Em todo Estado foram 97 assaltos no primeiro semestre. O número já é maior que o registrado em 2015, quando foram 89 casos.
Um dos assaltos de maior repercussão foi registrado no dia 3 de março, quando dois homens armados invadiram a unidade de São Pedro do Ivaí. Funcionários e clientes foram mantidos sob a mira de armas por mais de quatro horas, quando os bandidos se entregaram à polícia. “Quando se é assaltado, nunca mais se trabalha normal. Como a cidade é pequena a gente conhece a maioria das pessoas. Se chega alguém desconhecido na agência o coração acelera”, relata um funcionário que preferiu se identificar.
O carteiro relata ainda que um colega de profissão já teve até mesmo o carro roubado pelos ladrões. “Quando venho de carro, deixo a umas duas quadras de distância. Eu até penso em mudar de emprego, mas ainda não consegui passar em outro concurso. Mas de Deus quiser, isso ainda vai acontecer e vou poder seguir um caminho mais tranquilo”, acrescenta.
O medo não ronda somente os funcionários dos Correios, mas também os empregados e proprietários de lojas que têm seus estabelecimentos comerciais próximos às agências. É o caso de Valdir Raboni, proprietário de uma loja de móveis em São Pedro do Ivaí que fica em frente ao Correio. “Esse último (assalto) foi muito tenso, as pessoas ficaram totalmente vulneráveis, a cidade inteira parou”, destaca Raboni.
Rildo Bernardes Camargo, dono de uma panificadora próxima aos Correios, diz que o grande problema de roubos em São Pedro do Ivaí é por conta do pequeno efetivo da Polícia Militar (PM). “É preocupante, nas grandes cidades o policiamento é maior e os bandidos estão preferindo agir nas cidades menores, pois sabem que o efetivo é pequeno”, assinala Camargo. Ele comentou ainda, para tentar inibir os assaltos, o Conseg do município vai instalar câmaras de segurança na cidade.
Em São João do Ivaí, a situação não é diferente, e o clima tenso toma conta dos funcionários a unidade dos Correios na cidade. No início de abril, a zeladora, ao chegar à agência por volta das 8 horas foi surpreendida por um assaltante, já se encontrava no interior prédio. Conforme os funcionários chegavam, eles eram rendidos e amarrados. Um funcionário chegou a ser agredido com uma coronhada na cabeça.
Após ter acesso ao dinheiro, o assaltante roubou os telefones celulares dos funcionários e foi resgatado por um comparsa que estava de motocicleta e o aguardava na frente dos Correios.
“Por mais traumatizante que foi esse último assalto, não foi pior do que ocorreu 29 dias antes [7 de março]. Naquele assalto, os bandidos já chegaram atirando. A agência, estava cheia de pessoas, e eles foram ajuntando todo mundo no meio da rua. Entrei em pânico, pois achei que iam atirar em todo mundo”, relata um funcionário que também não quis se identificar.
Liminar garante guarda armado
O aumento na segurança das agências é uma das pautas do Sindicato dos Trabalhadores nos Correios do Paraná (Sinticom), entidade que vem fazendo o acompanhamento dos casos.
“Na verdade, os Correios têm funcionado como bancos, aceitando depósitos, saques e fazendo algumas movimentações financeiras, dessa maneira a segurança das agências deveria ser a mesma dos bancos, com guarda armado e porta giratória”, comenta o diretor regional do Sinticom, Fabiano Silveira.
Segundo Silveira, além da campanha, o sindicato tem tentado melhorar a segurança das unidades através de medidas judiciais. O Sinticom conseguiu, em maio, uma liminar junto a Justiça do Trabalho que obriga a ECT a implantar porta giratória com detector de metal, câmeras de segurança internas e externas, alarme e vigilante armado nas agências dos Correios de Apucarana, Bom Sucesso, Califórnia, Cambira, Jandaia do Sul, Kaloré, Marilândia do Sul, Marumbi, Mauá da Serra, Novo Itacolomi e Rio Bom. A EBCT tem prazo de 180 dias para cumprir a medida, mas está recorrendo da decisão.
Ele destaca que os assaltos estão hoje entre as principais causas de afastamento de funcionários. “O pessoal precisa sair para tratamento psicológico e até físico. Nessa semana, por exemplo, o gerente de Alvorada do Sul foi encontrado desmaiado na agência, os ladrões o agrediram até ele perder a consciência”, comenta.
Levantamento do sindicato aponta que no ano passado, 35% das comunicações de acidente de trabalho (CAT) foram motivadas por assaltos. A título de comparação, os ataques de cães - problema tradicional em se tratando de carteiros - foram responsáveis por pouco mais de 17% dos afastamentos.