achaduras e marcas de reparos nas paredes passaram a fazer parte da paisagem do Conjunto Tropical em Arapongas. A região foi uma das mais atingidas pelas chuvas do início do ano, que danificaram mais de 650 imóveis e levaram a interdição temporária de 72 na área urbana do município - atualmente, duas casas continuam interditadas pela Defesa Civil. Moradores do local ainda trabalham na reforma das casas. Outros, sem ter recursos para financiar os consertos, se arriscam em permanecer no local.
Com a casa ainda interditada pela Defesa Civil, a desempregada Célia Regina Coltro, 46 anos, continua no local há cinco meses. Da rua é possível ver rachaduras na parte da frente da casa. Na garagem, mais rachaduras contornam as janelas. O piso está desnivelado, por causa de infiltrações. No interior da residência, apenas o quarto do filho, Lucas, 20, também desempregado, e um escritório, não tem trincas pelas paredes.
A situação mais complicada está na cozinha, onde uma fenda, com cerca de cinco centímetros, se abriu do chão ao teto. Sem dinheiro do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), que foi liberado para os araponguenses que tiveram a casa danificada, ela não sabe o que fazer. “Na época eu não estava trabalhando registrada, por isso, não tinha direito. Agora, estou completamente desempregada”, afirma.
No início do ano, ela sustentava a casa trabalhando de diarista. “Atualmente, eu estou indo trabalhar alguns dias na semana no sítio do meu irmão na colheita de café”, revela. O valor ganho com o trabalho mal dá para pagar as contas da casa. “É impossível tirar algum valor do orçamento para fazer a reforma”, garante.
Ela calcula que gastaria, em média, R$ 40 mil para fazer a reforma. “É melhor demolir e construir outra”, diz. Sobre a possibilidade de deixar a casa, ela resiste, uma vez que não tem para onde ir. “Não tenho outra casa para morar ou condições para pagar aluguel. O meu menino queria fazer um curso profissionalizante, para conseguir um emprego, e não consigo pagar”, comenta a situação.
Enquanto isso, ela continua na casa e reza para não chover demais. “Fico apavorada quando chove”, confessa. A chuva também é motivo de preocupação para a vizinha de Célia, a aposentada Celina Lira da Silva, 65. Ela e o marido, o aposentado Sebastião da Silva, 75, já fizeram dois empréstimos para fazer pequenos reparos na casa. “Fizemos alguns consertos e já apareceram rachaduras novamente. Agora, temos que fazer uma obra nos fundos, para não deixar a água da chuva empossada”, assinala.
Nas duas obras, dona Celina vai gastar R$ 6 mil, valor que deverá ser pago em seis anos. “Não tem outro jeito”, afirma.
O vizinho da aposentada também está com obras em casa. Valdemir Antônio do Nascimento, 60, vai investir também cerca de R$ 6 mil para consertar as rachaduras que tomaram conta das paredes.
Com problemas de saúde, a esposa Maria Lenice, 51, é a responsável por manter a casa com o dinheiro de feirante. “Além dos gastos da casa, tenho problemas de saúde. Direto preciso ir pra Curitiba fazer tratamento. Também estou lutando para conseguir o benefício do INSS”, revela. Por isso, por enquanto, os muros, que também apresentam fissuras, vão ficar de fora da reforma.
Município ainda aguarda recursos do governo federal
Com as fortes chuvas de janeiro, municípios decretação situação de emergência e solicitaram recursos do Governo Federal, para ajudar na recuperação de estradas, pontes, entre outros serviços. Porém, até ontem Arapongas nem Apucarana, que também havia solicitado os recursos, recebeu qualquer valor para arcar com os danos. “Recebi a informação que o nosso processo não foi nem analisado ainda devido ao grande volume de demanda”, diz o secretário de Obras de Arapongas, Pedro de Marco.
As verbas extras, segundo o secretário, ajudariam na recuperação de estradas, pontes e crateras em fundo de vales. “A Prefeitura tem trabalhado na recuperação, mas alguns casos são mais delicados”, explica. Nesta lista está o caso do Clube Campestre, que teve duas quadras de tênis e parte do vestiário engolidos pela erosão. “Este é um problema antigo, de mais de 40 anos, que precisa de um projeto bem feito, para que seja resolvido”, diz.
De acordo com secretário, esta é uma obra cara, que exige a participação do Governo Federal. Ele também observa, que por ser uma propriedade privada, o processo é ainda mais burocrático, para evitar problemas jurídicos no futuro. O município, porém, ainda não fez um balanço completo dos gastos já arcados pelo município na recuperação dos danos causados pelas chuvas.