Apreensões de drogas aumentaram neste primeiro trimestre em comparação com o mesmo período do ano passado em Apucarana. O que chama a atenção de maneira especial é o avanço da cocaína com usuários e também em pontos de tráfico. O entorpecente, que era considerado de luxo, tem aparecido cada vez com mais frequência nas apreensões realizadas pela Polícia Militar (PM). O uso da cocaína é feito tanto por adultos quanto por adolescentes. Nos três primeiros meses deste ano foram apreendidos 456 gramas contra 97 gramas entre janeiro a março de 2016, o que representa um aumento de 370%.
Os números foram extraídos somente do sistema Business Intelligence, da Polícia Militar, não contabilizando outras apreensões que podem ter ocorrido no mesmo período pela Polícia Civil, por exemplo, puxando ainda mais o índice para cima. Percebe-se um avanço da cocaína neste ano até mesmo quando comparado com dados da Secretaria Estadual de Segurança (Sesp), que engloba apreensões realizadas por todas as forças policiais. O relatório mostra que durante todo o ano de 2016 foram apreendidas em Apucarana 416 gramas de cocaína.
A alta também é observada em outros entorpecentes. Apreensão de maconha, por exemplo, aumentou 92% nos três primeiros meses deste ano.
Na avaliação do investigador-chefe do Departamento de Narcóticos, da 17ª Subdivisão Policial (SPD), Rômulo Cardoso, o aumento das apreensões é reflexo do aumento do consumo de drogas.
Em relação a cocaína, ele observa que houve uma mudança no perfil do mercado da droga: o preço baixou e a demanda aumentou, o que tem feito com que traficantes passem a oferecer também este tipo de entorpecente. “Hoje em dia, um pino de cocaína tem custado entre R$30 a R$40. Há seis anos, uma porção custava R$ 80”, compara.
Para baixar o preço, os traficantes usam de artimanhas para aumentar o volume das porções, o que gera um alerta ainda maior. “Análises mostram que numa porção de cocaína a maior parte são de outras substâncias como laxantes e analgésico”, diz. Além disso, ele alerta que a droga, antes usada por um público mais adulto também ‘rejuvenesceu’. É cada vez maior o número de flagrantes envolvendo adolescentes, tento como usuários ou traficantes.
Segundo Cardoso, 15 menores são apreendidos, em média, por semana por tráfico de drogas em Apucarana. “Na maioria dos casos, há materialidade nas denúncias e muitos adolescentes confessam a prática de venda de drogas. Porém, nenhum neste ano foi encaminhado para o Cense (Centro de Socioeducação), o que tem estimulado o uso de menores no tráfico na cidade”, argumenta.
Cardoso ressalta que a falta de vagas reforça a reincidência. “Acompanhamos o caso de um garoto que foi apreendido cinco vezes nos últimos 15 dias por tráfico, confessou o crime, mas foi liberado, porque o Judiciário não consegue vagas de internamento”, afirma.
Ele diz lembrar que apenas um menor, em 2016, foi internado em Cense por tráfico. “A Justiça também não instaura mais inquéritos por causa de uso de drogas. É uma nova determinação”, pontua.
Brasil é o segundo maior consumidor da droga
O delegado Lanevilton Theodoro Moreira, do Núcleon de Repressão ao Tráfico de Drogas, de Londrina, braço da Divisão Estadual de Narcóticos (Denarc), comenta que há anos o Brasil já se destaca no cenário internacional como o maior consumidor mundial de crack e o segundo maior consumidor mundial de cocaína.
“Circunstâncias que certamente guardam relação com o fato de nosso País possuir uma expressiva área de fronteira e fazer divisa territorial com os maiores produtores mundiais de pasta base de cocaína, notadamente Peru, Bolívia e Colômbia”, analisa.
Nesse contexto, segundo ele, percebe-se que Apucarana está inserida na mesma realidade e condições socioeconômicas e culturais de outros grandes centros urbanos. “Às forças de segurança locais incumbe o papel de fortemente reprimir o tráfico e o consumo de drogas nos centros urbanos, enquanto a outros órgãos são atribuídas as tarefas de fiscalização de nossas fronteiras e de desenvolvimento e implementação de ações e políticas públicas que tornem nosso País menos vulnerável às ações de quadrilhas internacionais envolvidas com a introdução de drogas no território nacional”, diz.
Lanevilton entende que é um cenário complexo e bastante amplo de enfrentamento à criminalidade organizada e que, em alguns momentos, influencia nas ações e resultados alcançados por órgãos ou setores individualmente considerados. “Os grupos de usuários que fazem uso desse tipo de entorpecente atualmente não pertencem mais exclusivamente integram classes sociais de maior poder aquisitivo”, avalia.
Consumo de drogas vai além da polícia
Na avaliação da tenente Kelly Wistuba de França, relações públicas do 10º Batalhão de Polícia Militar (PM), de Apucarana, houve um aumento do consumo de drogas em todo o País e, em muitas situações, dizem respeito a problemas sociais que vão além do problema de polícia.
Segundo ela, podem estar relacionados ao avanço do desemprego e falta de estrutura familiar. “Nesse ponto entra questões como a falta de tempo e dedicação dos pais, aceitação em um determinado grupo, principalmente entre os adolescentes, facilidade de acesso devido a familiares e amigos também serem usuários”, diz.
Além desses pontos, a oficial observa que o usuário geralmente não recebeu informações adequadas conscientizando sobre os danos causados pelo uso de drogas, tanto relacionado à saúde quanto social, tornando-se um dependente.
Diante deste cenário, segundo ela, o que compete à PM são os trabalhos feitos com resultados a longo, médio e curto prazo. “A longo prazo são os trabalhos de conscientização e educação em escolas, principalmente através do Proerd. A médio prazo são as ações e operações visando prender traficantes, com isso, a ideia é que os usuários não tenham tanta facilidade”, diz.
Já a curto prazo, de acordo com a tenente Kelly, que dificilmente resolve, pois a dependência química pode ser vista como um problema de saúde pública, são as abordagens e encaminhamentos dos usuários, que têm como objetivo retirar este indivíduo do vício.