CIDADES

min de leitura - #

Costurando uma moda inclusiva

Fernanda Neme

| Edição de 02 de julho de 2017 | Atualizado em 30 de junho de 2017

Fique por dentro do que acontece em Apucarana, Arapongas e região, assine a Tribuna do Norte.

Moda e deficiência são duas palavras que parecem não andar juntas. Possibilitar a autonomia ao se vestir para pessoas com deficiência, criar peças que visam dar origem a um vestuário funcional e ergonomicamente projetado é exatamente um dos objetivos do curso técnico avançado “Moda Inclusiva”, que tem como alunas um universo de pessoas que sabe como poucas as necessidades deste público: as mães dos alunos da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Apucarana. 
As aulas reúnem 17 mulheres do grupo de mães Apae e acontecem nas dependências da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). A meta do curso é preparar o grupo para desenvolver uma grife própria.

Imagem ilustrativa da imagem Costurando uma moda inclusiva
Ônibus ‘estaciona’ no pátio da Apae para ensinar corte e costura às mães | Foto: Sérgio Rodrigo


A dona de casa Sara Sousa de Barros, 44 anos, é uma das participantes do curso iniciado em março deste ano. Ela é avó de Miguel, de 1 ano e 5 meses, que nasceu com mielomeningocele, quando o desenvolvimento ou fechamento da medula espinhal de um bebê no útero não acontece de forma adequada. Miguel, assim como cerca de 90% das crianças com a mielo, desenvolveu hidrocefalia, que é a acumulação de líquido na cavidade craniana. 
Após implantação de uma válvula para drenar o líquido acumulado,  hoje as medidas do crânio do bebê são normais. Porém, foi neste período que ela e a filha Tatiane, 27, mãe de Miguel, perceberam que futuramente ele poderia precisar de roupas com medidas diferentes. “Não conseguíamos colocar roupinhas nele, pois não passavam na cabeça. Além disso, ele usa bota ortopédica e não tem sensibilidade nas perninhas”, conta. 
Sara, assim como maioria das outras colegas de curso, está muito animada com as possibilidades abertas pela capacitação. “Foi muito bom mesmo aprender a costurar, já que eu não sabia. Outra coisa, pelo neto a gente faz qualquer coisa”, ressalta. 
Outra participante é a dona  de casa Marly de Godoy, 50, mãe de Gustavo, 13, que tem Down. “Sempre tive dificuldade para encontrar roupas para meu filho. A numeração que tem no mercado não corresponde às medidas e forma físicas dele”, explica. 
Com o curso, a dona de casa está aprendendo a costurar e em breve poderá confeccionar as roupas de Gustavo. “Estou muito feliz em poder participar deste projeto. E o melhor é que ainda é gratuito”, conta. 

BENEFÍCIOS

A assistente social da Apae, Grasiele Gracioli Moreira Belino, responsável técnico pelo projeto, diz que as ações propostas para o grupo de mães trarão inúmeros benefícios para essas famílias. “Elas podem compartilhar cultura, troca de vivencias e experiências, sempre priorizando o incentivo à autonomia dupla, ou seja, cuidador e pessoas com deficiências”, acrescenta.

Economia solidária
A ideia de criar uma grife de moda inclusiva nasceu após as mulheres participarem de capacitação junto ao projeto de Economia Solidária e Protagonismo Feminino, da Secretaria da Mulher e Assuntos da Família da Prefeitura de Apucarana.
Como essas mães deixam seus filhos na Apae e passam a tarde com eles acompanhando a alimentação e administrando os remédios, a rotina inviabiliza o emprego formal a direção da instituição sugeriu a capacitação.
Segundo a secretária da Mulher e Assuntos da Família, Denise Canesin Machado, no decorrer da capacitação, o grupo de mães mostrou interesse em aprender corte e costura, com a intenção de criar uma grife de roupas para seus filhos especiais, uma vez que não existe no comércio uma modelagem especial para crianças com deficiências. Para ajudar as mães, um ônibus-escola com duas instrutoras está sendo disponibilizado para as aulas. “Ali, as mães tiveram a oportunidade de aprender corte e costura básicos”, conta. 
A Secretaria da Mulher fez uma articulação com a diretoria da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) – Campus Apucarana, para proporcionar às mães uma segunda etapa, agora avançando para um curso técnico avançado para ensinar modelagem e ajudá-las na criação da grife. 
Entre os envolvidos no projeto, o professor Nélio Pinheiro, responsável pelas disciplinas de Ecodesign, Tridimensional, Produção de Moda, que está trabalhando há alguns meses com as mães e já pode ver resultados positivos. ““Muito gostoso trabalhar com as mães. Elas são muito animadas e cheias de energia, e participar deste projeto faz a gente se sentir muito melhor”, conta.