A crise financeira extinguiu de janeiro a outubro deste ano quase 900 mil empregos com carteira assinada em todo o Brasil, 3,6 mil só na região. E como o mercado não tem criado novas vagas para reacomodar os demitidos, muitas pessoas decidiram arregaçar as mangas e trabalhar por conta própria. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o número de pessoas que atuam na informalidade cresceu 989 mil no segundo trimestre deste ano em comparação ao mesmo período do ano passado, um aumento de 4,7%. Ao todo, o IBGE diz que 22 milhões de pessoas trabalham na informalidade no País.
Daliane Barreira, 28 anos, moradora de Cambira, faz parte desta estatística. Após trabalhar sete meses em um cartório - três meses como temporária, sem carteira assinada -, ela que é casada e tem um filho de quatro anos, foi desligada da empresa em junho deste ano sem direito ao seguro desemprego. Com contas para pagar e sem oportunidades no mercado ela decidiu montar seu próprio negócio.
“A justificativa da empresa foi que o fluxo de pessoas estava diminuindo e o trabalho interno também. Hoje em dia está muito difícil encontrar uma vaga de emprego então tive que me virar”, diz.
Com a ajuda da mãe, Maria Divina Barreira, 63 anos, Daliane começou a fabricar em casa pães tradicionais e recheados, e massas como lasanha, empadão, panqueca, dentre outros. “Consigo tirar uma renda mensal de R$ 800 a R$ 1 mil”, conta.
Formada em gestão de recursos humanos em 2009, Daliane ainda não teve oportunidade de trabalhar na área. Mesmo assim ela é determinada e está na segunda faculdade, no curso Direito. “Como não tive oportunidade de trabalhar na área de RH por falta de experiência decidi fazer outro curso buscando crescimento profissional”, relata.
Apesar de investir no negócio próprio, ela diz ter esperança de se reinserir no mercado. “Enquanto não aparecer oportunidade vou ampliando o meu negócio e quem sabe se, tudo der certo, continuar no ramo da alimentação”, conclui.
A informalidade também foi a maneira que jovens encontraram para tirar renda extra e quem sabe até alcançar a independência financeira. É o caso do estudante Victor Pacheco, 21 anos, que saiu de São Paulo (SP) para Apucarana, onde cursa Tecnologia em Processos Químicos, na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).
Ele conta que recebe ajuda mensal dos pais, mas para não sobrecarregar os gastos da família, ainda mais nesta fase crítica em que todos estão economizando, ele decidiu desenvolver um produto com baixo investimento e custo final vantajoso ao público alvo.
“Sempre tive vontade de empreender, como aluno de curso noturno me sobrava um bom tempo para pensar em algo, tendo grande parte do meu networking formado também por estudantes, pensei que eles teriam que ser meu público alvo. O problema é que estudante muitas vezes não trabalha e logo não tem poder de compra, então tive que pensar em algo que caberia no bolso de todos”, diz.
Pacheco buscou inspiração nos doces tradicionalmente comercializados nas universidades como brigadeiro e pão de mel. No entanto, procurava um produto inovador. “Sempre recebi grandes elogios à minha receita de brigadeiro, então decidi investir em palhas italianas, que tem o brigadeiro como um dos ingredientes principais. E para caber no bolso do meu público alvo deixei o doce em um tamanho que seu custo máximo não passasse de R$ 1”, conta.
Surgiram então as ‘Palhas do Vitu’. O sucesso nas vendas implicou na expansão da produção, em parceria com mais dois estudantes e até na criação de novas receitas. Juntos os jovens correram atrás de fornecedores, criaram tabelas de preços e passaram a vender para públicos de outras universidades e até mesmo em algumas lanchonetes da região. O objetivo agora é formalizar o negócio.
Sebrae orienta a legalização da atividade
O consultor do Sebrae Arapongas, Júlio Cesar Rodrigues, diz que este meio de atividade é um caminho que muitos empreendedores têm para desenvolver seu negócio, seja por oportunidade ou necessidade. E muitos empresários de sucesso começaram na informalidade.
Por outro lado, Rodrigues alerta que, quem se encontra nesta condição corre o risco de não crescer, pelo risco de fiscalização, dificuldade de acesso ou outras limitações.
“Independente do modelo, o empreendedor deve sempre ficar atento ao seu negócio, atualizar-se e manter-se atento aquilo que seu cliente deseja, oferecendo produtos e serviços de qualidade e não descuidar da gestão, principalmente dos custos e do preço de venda. Muitas vezes o informal se submete a oferecer preços com prazos impraticáveis, que farão com que o negócio não prospere”.
Entre as vantagens de formalizar o negócio o consultor salienta a possibilidade de acesso a itens como crédito e financiamento específicos, vender e entregar seus produtos sem riscos de retenção ou não pagamentos e ainda ampliar seu mercado. A maior parte das empresas e órgãos públicos exigem nota fiscal, item que na informalidade o empreendedor não teria.
“Muitas vezes o empreendedor acredita que formalizar fica caro e não é. Como qualquer negócio é necessário pagar taxas e impostos, mas os preços variam conforme o tamanho da empresa ou atividade. Há casos que para a abrir um negócio o empreendedor tem todas as taxas isentadas e paga apenas os impostos que não passam de R$ 45 ao mês, é o caso do empreendedor individual”.
Caso tenha dúvidas sobre formalizar-se, procure uma unidade do Sebrae mais próxima ou pelo telefone 0800 570 0800.
PALAVRA DO ESPECIALISTA
Informalidade: mal necessário
A transposição de formalidade para informalidade está totalmente ligada com a crise econômica que nosso País está enfrentando nos últimos tempos, pois, a crise gera uma menor movimentação da economia, assim as empresas produzem e vendem menos. Desta forma, o número de pessoas necessárias para a produção e venda é menor, ocasionando um aumento no número de desempregados. Portanto, as pessoas buscam alternativas para a sua sobrevivência, e passam a trabalhar na informalidade, tendo em vista que o número de vagas de trabalho formais vem diminuindo.
Claro que a informalidade não é boa em nenhum sentido, mas supre uma falha em nosso mercado de trabalho tendo em vista que a economia não opera em funcionamento total. Mesmo não sendo o ideal, as pessoas que procuram trabalhar na informalidade também geram benefícios, pois, estão movimentando a economia através da venda de produtos ou prestação de serviços onde elas acabam tendo uma renda que é transformada em produtos e serviços que são consumidas por elas, com isto colaboram para manter ou até mesmo aumentar o nível de atividade econômica.
Marcelo Vargas, economista, professor da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), campus Apucarana