O diagnóstico precoce ainda é considerado um dos principais entraves no combate ao câncer de mama, que é o mais comum entre as mulheres e, segundo o Instituto Nacional do Câncer (inca), corresponde por cerca de 25% dos casos novos da doença a cada ano. Dos 273 atendimentos realizados pelo Centro de Oncologia do Hospital da Providência, de Apucarana, desde que o sistema foi credenciado pelo Ministério da Saúde em outubro de 2008, apenas 8.8% dos casos, o que representa 24 pacientes, foram diagnosticadas na fase inicial.
“O diagnóstico precoce, na fase chamada “in situ”, ou seja, que é quando o tumor está no estágio inicial, a chance de cura é de 98%. Este diagnóstico precoce depende fortemente da realização da mamografia”, observa o médico responsável pelo Serviço de Mastologia do Hospital da Providência, de Apucarana, Ribamar Maroneze.
Em países desenvolvidos, segundo Ribamar, o índice chega a 30%. “Isso significa que o serviço de atenção primária à saúde não está funcionando adequadamente, mas isso no âmbito nacional. O acesso à mamografia precisa ser facilitado. Hoje, a mulher geralmente perde três dias de trabalho, para fazer a mamografia, o que impossibilita às vezes a busca principalmente quando não tem sintomas”, avalia.
O especialista defende que o acesso à mamografia deveria ser ampliado. “Atualmente, a mamografia é recomendada a partir dos 50 anos pelo Ministério da Saúde. Já a Associação Brasileira de Mastologia orienta aos 40 anos”, cita como exemplo. Em casos de histórico na família, o recomendado é 10 anos antes do último caso.
Ribamar entende que, caso as brasileiras tivessem acesso a mamografia sem a necessidade de antes passar por uma consulta, facilitaria o diagnóstico precoce e, consequentemente as chances de cura.
Nos casos mais avançados é comum a paciente ter que passar pela mastectomia, extirpação total da glândula mamária, procedimento considerado mutilante e inestético, de acordo com Ribamar. “Dos casos atendidos, a mastectomia foi realizada em 97 casos, totalizando 35% dos casos, índice comparável com serviços de cirurgia do câncer de mama em países desenvolvidos, o que é positivo”, defende.
Nos Estados Unidos, ele cita que a cirurgia conservadora da mama é realizada em 59% dos casos. “Em Apucarana, 65% dos casos tratados para câncer de mama tiveram suas mamas preservadas ou reconstruídas. O Sistema Único de Saúde (SUS) está preocupado com o bem-estar das pacientes e também tem disponibilizado recursos eficientes”, argumenta.
Nos outros 176 casos, segundo Ribamar, foram realizadas técnicas de reconstrução mamária imediata ou tardia, cirurgias de conservação da mama bem como cirurgias oncoplásticas, onde a mama é conservada com algum ganho estético. “É importante ressaltar que, no serviço de Apucarana, dentre as mulheres mastectomizadas (97), 69 casos eram considerados avançados, ou seja, 71% deles, o que dificulta a preservação mamária e se constitui num indicativo de que grande parte das mulheres ainda demoram a procurar os serviços de saúde”, frisa.
Em alusão ao Outubro Rosa, o médico revela que Serviço de Mama planeja a reconstrução de 20 mulheres que tiveram suas mamas retiradas em decorrência do tratamento do Câncer, porém frisa que o diagnóstico precoce evita a mastectomia e aumenta as chances de recuperação.
Irmãs enfrentam doença juntas
Sem histórico de casos na família, as irmãs Cristiane Sanches Andrade, de 36 anos, e Cacilda Sanches Nunes, 49, de Apucarana, foram surpreendidas com o diagnóstico do câncer de mama. A primeira a descobrir a doença foi Cristiane, que percebeu algo estranho no seio esquerdo durante o banho. Imediatamente, ela, com 35 anos, procurou o médico particular, que recomendou mamografia e ressonância, além de fazer da biopsia.
“Na época não era cogitada a possibilidade de ser um câncer, acreditava-se que era um cisto, mas, por precaução, foi recomendado os exames. Quando recebi o resultado fiquei em choque”, recorda. O diagnóstico de Cris, como é mais conhecida, acedeu o alerta para Cacilda, que já tinha identificado um nódulo num dos seios há mais dois anos, mas o médico teria dito que provavelmente era de gordura e não precisaria fazer a mamografia. A confirmação, no entanto, veio em julho deste ano.
Cris, assim que fez a biopsia, passou pela mastectomia e também por sessões de quimioterapia. O período de tratamento serviu para desmitificar a doença. “Eu não tinha experiência na família, então, fui descobrindo que não era o fim. O diferencial para enfrentar o câncer está na psicológico, no jeito de pensar. E no diagnóstico precoce também que, além de ter mais chance de cura, o tratamento é menos invasivo”, diz ela, que completou o tratamento há 5 meses.
Já a irmã está firme no tratamento. “Quando eu descobri, fiquei brava porque se o médico tivesse pedido para fazer a biopsia antes ou tirado o tumor antes, de repente não tinha evoluído para o câncer”, sublinha. E juntas, elas seguem bem-humoradas e confiantes.