Oitenta famílias de Apucarana tiveram seus lares violados por bandidos no primeiro semestre deste ano. O número revela um avanço deste tipo de crime na cidade. No ano passado foram 66 casos no mesmo período. O acréscimo de 21% representa que, por semana, ao menos duas casas foram invadidas por criminosos, que além de ameaçar, em muitos casos, agridem seus moradores. Em situações recentes, inclusive na área central de Apucarana, os assaltantes usaram de extrema violência com as vítimas, que necessitaram de atendimento médico e psicológico.
Amedrontadas, muitas mudaram de rotina e até de endereço em nome da segurança. É o caso de uma aposentada apucaranense de 76 anos, vítima de assalto, que terá seu nome preservado. A família, que morava em apartamento, resolveu alugar uma casa para ter mais qualidade de vida e atender o desejo da matriarca, que tinha no cuidado com as plantas uma fonte de terapia. Com área para quintal, a idosa, que estava passando por processo de recuperação de um câncer de mama, tinha espaço para cultivar temperos e flores no jardim. A alegria de morar no local foi interrompida na noite de uma sexta-feira.
Por volta das 21 horas, a filha da aposentada, que também não terá o seu nome revelado, foi surpreendida quando tentava entrar em casa de carro. “Eu sempre passava observando a rua antes de entrar. Naquele dia, eu vi os três rapazes, mas já tinham passado a calçada da minha casa. Estavam de costas para mim, como se não estivessem me vendo. Quando parei, eles voltaram correndo”, revela. Nessa hora, ela percebeu o que estava por vir.
Dentro da casa, os jovens (dois armados) reviravam todos os cantos em busca de joias, que não tinham. “Levaram só bijuterias, algumas finas”, afirma. Enquanto dois vasculhavam os quartos, acompanhados de outra filha da aposentada, um ficava o tempo todo na sala com a arma apontada para as vítimas. “Em determinado momento, a minha mãe desmaiou. Esses foram os piores minutos, porque, além do sentimento de impotência e invasão, senti que iria perder o que para nós é mais caro: a minha mãe. Achei que ela fosse morrer, que estava enfartando”, afirma. A aposentada tem em seu histórico duas angioplastias.
Diante da insistência e desespero das filhas, o assaltante, que estava com a arma na sala, permitiu que pegasse o remédio de emergência da idosa, que após ingeri-lo acordou. A aposentada havia saído há dois dias do hospital, onde estava internada para controlar a hipertensão. Depois do assalto, a pressão demorou três meses para estabilizar.
Após a violação do lar, a família decidiu novamente morar num apartamento. Com lágrimas nos olhos, a aposentada garante que não quer mais morar em casa nem ter horta ou jardim. “Isso deixou de ser importante”, afirma.
“Na primeira semana, eu não consegui dirigir. Nós ficamos três noites sem dormir, ficávamos em casa com o alarme ligado”, recorda.
Depois do episódio, uma das vítimas, confessa que tem dificuldade em andar com a janela do carro aberta, em especial, no semáforo. “Ainda hoje, quando eu vejo um grupo de meninos, usando bonés, ainda me assusto”, admite.
A Tribuna entrou em contato com outras vítimas, que ainda amedrontadas, preferiram não falar com a reportagem com receio de ser identificadas pelos próprios criminosos.
Atenção ao entrar em casa é fundamental
A tenente Kelly Wistuba de França, responsável pela Comunicação Social 10° Batalhão de Polícia Militar (BPM), de Apucarana, observa que a maioria dos crimes ocorre devido à oportunidade que o criminoso percebe que tem para cometê-lo, por isso, é fundamental que seja reduzida essa chance ao máximo possível para evitar a ação criminosa.
Em casa, a tenente Kelly recomenda adotar medidas de segurança, como grades altas, sistema de alarmes, câmeras de segurança, utilização de cães de guarda, manter portões e portas trancados, colocar grades em janelas e concertinas. “Essas barreiras dificultam a ação criminosa e, muitas vezes, fazem com que o infrator desista de entrar na residência para cometer furtos ou roubos, devido à dificuldade de acesso”, afirma.
Ao sair e chegar na residência, ela orienta, seja a pé ou de carro, sempre estar atento ao seu redor. “Verifique quem está parado nas proximidades e, se visualizar algo suspeito, não pare em sua residência. Siga em frente e entre em contato com a Polícia Militar imediatamente”, aconselha.
Outra dica é nunca ficar parado em frente à residência aguardando outra pessoa, ou conversando no interior do veículo, porque no momento que a pessoa está distraída, o criminoso pode se aproximar e abordar a vítima e entrar em sua residência. “Quando parar em frente ao portão para entrar na residência, o morador deve estar sempre atento, olhando pelo espelho retrovisor, com os vidros fechados, e a qualquer sinal de aproximação de pessoas estranhas deve fazer o possível para acionar 190”, indica.
A tenente Kelly observa ainda nunca abrir o portão da residência a pessoas estranhas nem fornecer informações ou alimento/água para pessoas que se aproximam. “Muitas vezes pode ser uma forma de distração que o criminoso utiliza para entrar na residência”, argumenta.
Ainda sobre o quesito segurança, ela comenta que, se mesmo diante de todas as posturas adotadas para evitar uma situação de assalto, o bandido consiga fazer a abordagem é preciso manter a calma. “Não reaja e tente observar o máximo de detalhes possíveis, tanto dos criminosos quanto do modo como agem, e imediatamente, quando tiver uma oportunidade, ligue para 190 e repasse todas as informações”, orienta.
Do estresse ao pânico
As vítimas de crimes violentos, como assaltos, podem desencadear uma série de traumas. A psicóloga Débora Menegazzo, de Apucarana, comenta que, após a experiência, podem ocorrer quadros de estresse pós-traumático, insônia, ansiedade, depressão e até síndrome do pânico. “O desencadeamento ou não de um trauma depende de vários fatores, porque cada indivíduo reage de uma forma diante dos acontecimentos”, avalia.
Outro ponto observado pela psicóloga é a intensidade da situação vivenciada. Em alguns casos, os criminosos não só ameaçam, mas agridem as vítimas de forma violenta. “É comum, na primeira semana, ter insônias. Depois desse período, se continuar, é importante buscar ajuda de um profissional, porque pode tratar de um quadro mais grave, como ansiedade”, observa.
Entretanto, Débora lembra que a segurança é uma necessidade básica do ser humano. Por outro lado, observa que a segurança também envolve aspectos sociais. “Atualmente, toleramos situações de insegurança muito mais que em décadas anteriores”, afirma.
Mas, caso passe por situações de violência, a psicóloga aconselha, como forma de superar a experiência traumática, conversar com outras pessoas que já passaram por algo semelhante, buscar ter qualidade de vida, como fazer uma atividade física, e reforçar a segurança, para ter uma sensação de tranquilidade. “É preciso enfrentar a situação e compreender os riscos reais que o viver em sociedade tem”, diz