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Força de trabalho no campo tem queda de 54% na região

Renan Vallim

| Edição de 01 de agosto de 2018 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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O número de trabalhadores no campo caiu mais de 54% em 11 anos na região, aponta o Censo Agropecuário divulgado nesta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com especialistas, a mecanização é o principal motivo para a redução da força de trabalho na zona rural. O avanço das zonas urbanas e o aumento do arrendamento de terras fizeram com que a área rural e o número de estabelecimentos também caíssem.

Imagem ilustrativa da imagem Força de trabalho no campo  tem queda de 54% na região

De acordo com o levantamento, feito em 2017 em todo o Brasil, são 39.775 pessoas trabalhando no campo nas 26 cidades que compõem o Vale do Ivaí, mais Arapongas. O número, que inclui proprietários de áreas, empregados e rendeiros, é 54,3% menor do que o registrado no Censo Agropecuário de 2006, que era o último a ser publicado até então.
Paulo Franzini é chefe do Departamento de Economia Rural (Deral) da unidade regional de Apucarana da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento (Seab). Segundo ele, a mecanização foi a maior influenciadora para que este decréscimo ocorresse. “O aumento da mecanização nas práticas agrícolas ao longo dos últimos anos criou um círculo vicioso na zona rural. Quanto mais maquinários são utilizados, menos pessoas são necessárias para o trabalho. Elas vão embora para as cidades, o que gera falta de mão-de-obra no campo e exige mais mecanização”, afirma.
O aumento da mecanização também pode ser visualizado no Censo Agropecuário 2017, sobretudo de equipamentos que atuam onde, anteriormente, havia uma demanda maior de mão-de-obra. O número de colheitadeiras passou de 946, há 11 anos atrás, para 1.257, acréscimo de 32,9%. Já a quantidade de adubadeiras ou distribuidoras de calcário saltou de 1.056 para 1.296, alta de 22,7%.
“Para o campo, não há impacto negativo, muito pelo contrário aliás. A mecanização aumenta a produtividade, como vemos pelas constantes quebras de recordes de produção. O problema deste êxodo rural é o impacto social nas cidades, que ganham cada vez mais habitantes. Isto exige mais investimentos em mobilidade urbana, moradia, entre outros pontos”, diz Franzini.
Ao todo, 81,7% da área dos 27 municípios da região fica na zona rural, totalizando 643,7 mil hectares, aproximadamente. Esta área era de 777 mil hectares em 2006, o que resulta em uma queda de 17,2% em 2017, motivada pelo crescimento das áreas urbanas. Já o número de estabelecimentos rurais despencou 31,5% no período, passando de 21,8 mil para pouco menos de 15 mil.
“Com um número menor de pessoas no campo, houve um aumento do arrendamento de terras, gerando queda no número de estabelecimentos. É importante destacar que, se uma pessoa arrenda duas ou mais propriedades, elas são contabilizadas como apenas um estabelecimento rural”, ressaltou o chefe do Deral.

Pesquisa traça perfil do produtor
Homem, branco e alfabetizado. Estas são as principais características do produtor rural da região. Com relação à idade, a maioria tem entre 30 e 60 anos, mas o número de idosos é considerável, ultrapassando um terço do total.
No somatório das 27 cidades da região, são ao todo 14.896 proprietários de terras. Apenas 11,2%, ou quase 1,7 mil pessoas, são mulheres. Um quarto destes proprietários, ou 75%, se considera branco e 19%, pardo. Do total, 93% são alfabetizados e 61,5% têm entre 30 e 60 anos. A população acima dos 60 anos corresponde a 34,4%, mais de um terço do total.
O agricultor Antônio Rafael, de 80 anos, mora na zona rural de Jardim Alegre, produzindo abacate e criando frango de corte. Ele afirma que apesar de ter vivido a vida toda na área rural entende o apelo da cidade. “Os jovens querem oportunidades, e no sítio dificilmente ele consegue crescer. Quem fica na roça hoje é porque já tem um ‘pé de meia’, senão dificilmente vai querer ficar por aqui”. 
O filho do agricultor, Vlademir Rafael, de 50 anos, foi uma dessas pessoas que abandonou a vida na lavoura e foi procurar uma oportunidade em uma cidade maior. Em Londrina, ele trabalhou durante 30 anos como motorista e, agora aposentado, está retornando para ajudar o pai. 
“Agora só estou retornando porque eu e a minha mulher aposentamos. Como meu pai não está mais tendo condições de tocar o sítio sozinho e não quer vender, ele me pediu que retornasse para ajudá-lo”, relata.

Avanço da tecnologia
O Censo também mostra que a tecnologia está chegando rápido no campo. Dos quase 15 mil estabelecimentos rurais da região, cerca de 13 mil, ou 86,1%, tem telefone. O índice é mais alto do que as médias brasileira (63%) e paranaense (80%). A internet pode ser acessada em 6,6 mil estabelecimentos, ou 44,2% do total. O índice do Brasil é de 28,1%, enquanto que o do Paraná fica na casa dos 43,2%. 

Apesar disso, só 10% dos proprietários, ou 1,5 mil, possui e-mail. Dentre as propriedades que têm acesso à web, a internet móvel está em 77,4%, ou 5,1 mil localidades. O segundo principal meio de acesso é através da banda larga, presente em quase 2,3 mil pontos na zona rural da região, ou 34,5%.
O acesso à internet não foi contabilizado por município no censo anterior, de modo que não há como fazer um comparativo.
De outro lado, o censo mostra que cerca de 2,4 mil estabelecimentos da zona rural não têm energia elétrica, o que corresponde a quase 16% do total.