Às 9h30, em ponto, o morador de rua Flávio Pereira da Silva, 44 anos, aguardava ansioso o começo da aula de informática no Centro de Referência Especializado de População em Situação de Rua, também conhecido como Centro Pop, em Arapongas. Flávio vive sem endereço certo há cerca de 20 anos, desde que sua esposa morreu. Ele parou de trabalhar e não tinha mais dinheiro para pagar o aluguel da casa. Neste contexto, acabou se perdendo no álcool.
Motivado pela esperança de um futuro melhor, o pedreiro, que participou pela segunda vez da atividade, espera conquistar novas oportunidades e um novo emprego. “Dá até medo de mexer na tela e no teclado”, brinca. “Não quero ficar rico, quero apenas me estabilizar novamente e viver com mais dignidade. Quero conseguir pelo menos criar um currículo pelo computador e ter uma carteira de trabalho”, sonha.
Outro morador de rua que busca oportunidades com as aulas de informática é o pedreiro Sidnei Correia, 45. Há 8 anos ele se tornou sem teto e diz ter acabado na rua após viver muitas decepções. Desde então, acabou se envolvendo com drogas e álcool e se distanciando cada vez mais da família, inclusive da filha de 17 anos.
Com o curso de noções básicas de informática, Sidnei acredita que vai conseguir novas oportunidades de emprego e mais dignidade na nova caminhada. “Venho para me distrair, entrar no Facebook e procurar serviço. Está difícil por causa da crise, mas não perco a esperança de ter um futuro melhor”, espera.
Vivendo há menos de um mês nas ruas, o ex-usuário de drogas César Paulo Pristupa, 35, também sonha em conseguir um emprego. Ele já sabia algumas noções básicas de informática e aproveita o espaço para navegar pelo Facebook e sites de música. “Aprendi há alguns anos com meu tio e agora vejo no curso uma nova oportunidade de vida”, acredita.
REINSERÇÃO SOCIAL
As aulas de informática para moradores de rua são oferecidas pela Secretaria de Assistência Social, no Centro de Referência Especializado de População em Situação de Rua (Centro Pop), com o objetivo resgatar os vínculos sociais e comunitários do público atendido.
Há um mês, o voluntário Anderson Queiroz Andrade ministra as aulas semanais que duram uma hora e 15 minutos, no Centro Pop.
Como ele já fez cursos e foi proprietário de lojas da área, resolveu contribuir com os moradores de rua e melhorar a sociedade. “A finalidade é mostrar para esse pessoal que existe algo melhor, para que eles reencontrem suas identidades”, explica.
As aulas estão reunindo em média 10 participantes por semana e, para Anderson, o resultado é positivo. “Apesar das dificuldades, eles se esforçam para se saírem bem e almejam um futuro melhor”, reforça.
Centro oferta vários serviços
As aulas de informática fazem parte de um leque de serviços ofertados pelo Centro Pop, que fica aberto das 8 às 11 horas, e das 13 às 17 horas, de segunda a sexta-feira. O espaço oferece comida, banho, atendimento psicológico, médico, odontológico, assistência social e rodas de conversas. “A gente encaminha os moradores para que sejam atendidos em outros lugares e tenham qualidade de vida melhor”, reforça a secretária da Assistência Social, Ismailda Ferreira de Lima.
Segundo Ismailda, os moradores de rua ainda não têm uma entidade que seja cadastrada no Conselho de Assistência Social, que atenda como abrigamento para a população de risco. No entanto, contando com algumas ações, como a Casa Apoio, que acolhe como dormitório. “Para liberar a verba o Governo Federal precisa de uma entidade cadastrada e que tenha os requisitos exigidos”, reforça.
Mesmo não oferecendo lugar para dormir, segundo Ismailda, o Centro Pop acolhe os moradores de rua. “Todos que trabalham aqui têm muito carinho por essas pessoas que frequentam o Centro Pop, somo uma família”, ressalta.