Quem participa das missas de sábado à noite da Catedral Nossa Senhora de Lourdes, de Apucarana, já deve ter observado a intérprete de Libras, Fabíola Zappielo. A apucaranense fica no cantinho esquerdo do altar interpretando por sinais a celebração religiosa.
Fabíola é professora do primário em escolas municipais e foi sorteada, em 2008, para estudar a Língua Brasileira dos Sinais. Até então, ela não tinha nenhum contato com surdos. Foi uma identificação imediata com a Libras. “Acho que foi um dom de Deus que se manifestou”, afirma.
Além de lecionar na rede municipal, Fabíola também é professora de Libras no campus de Apucarana da Universidade Estadual do Paraná (Unespar). Hoje pós-graduada e especialista na área, ela afirma que decidiu atuar nas missas como voluntária para agradecer essa iluminação na sua vida, que foi trabalhar com os surdos. “É uma doação por ter o prazer de trabalhar com pessoas tão especiais”. A apucaranense conta com a ajuda de mais seis pessoas, que se revezam em alguns sábados na igreja e atuam como apoio na interpretação de Libras.
Para Fabíola, a inclusão dos surdos na sociedade ainda é algo um pouco distante da realidade. “Cada dia é um desafio. Percebo que meus alunos, nos primeiros dias de aula, ainda questionam: por que temos que aprender libras? Isso é muito triste”, lamenta.
A professora explica que a inclusão do surdo começa a partir do momento que ele pode estudar e se profissionalizar. “O surdo, por exemplo, pode tirar carteira de habilitação. O sentido da visão dele é muito mais aguçado do que o nosso”, reforça.
A professora comenta sobre a primeira igreja para surdos que está em fase de construção em Londrina, a Nossa Senhora do Silêncio, da congregação Pequena Missão para Surdos. Seria a primeira do mundo. “Todos que vão participar são surdos”, ressalta.
Para o Monsenhor Roberto Carrara, pároco da Catedral, o trabalho que Fabíola desempenha é de extrema importância para a evangelização. “É uma oportunidade para que os surdos participem da missa e recebam a palavra de Deus. O trabalho de evangelização da Fabíola é maravilhoso”, elogia o padre, que diz que o número de deficientes auditivos varia bastante durante as missas de sábado. Sobre a inclusão dos surdos na Igreja Católica, Carrara acredita que ainda seja limitado. “Para o nível que é nossa Diocese ainda é muito pouco”, lamenta.
Canal no Youtube
Com o objetivo de incentivar a inclusão dos surdos na sociedade, a apucaranense acaba de lançar um canal no YouTube com músicas atuais. Na verdade, o canal já existia, mas desde o mês passado a intérprete começou a gravar vídeos com canções da atualidade. A professora apostou na música sertaneja “R$ 50”, da cantora Naiara Azevedo, e deu certo. A gravação, feita pelo celular da professora, soma mais duas mil visualizações. “Tem uma lista de pedidos no Facebook. Estou animada com o retorno que o público tem dado”, comemora.
Fabíola pretende gravar pelo menos um vídeo por semana. “Os surdos amam música. Eles sentem a vibração das batidas”, explica. Nas gravações, as caras e bocas, ou seja, a interpretação é fundamental para que o objetivo do canal seja alcançado e os deficientes auditivos possam “sentir” a música. “A expressão facial é tudo nesse tipo de vídeo para surdos”, complementa.
Músicas de Jorge & Mateus, Maiara & Maraisa, Pedro Paulo & Alex, Tiago Iorc, Legião Urbana, também estão na lista de publicações disponíveis no canal de Fabíola. “É muito gratificante ver que as pessoas estão gostando do meu trabalho. No começo fiquei envergonhada, mas com o tempo fui perdendo a timidez”, revela.