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O desafio de ser autista

Vanuza Borges

| Edição de 02 de abril de 2017 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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Dono de um repertório linguístico singular, Andrew Barcellos-Hill, de 14 anos, foi diagnosticado com autismo leve há dois anos. Observador, o adolescente, que nasceu em Toronto, no Canadá, faz questão de falar somente quando algo é perguntado diretamente a ele ou faz colocações quando algum dado foge à memória da mãe, a jornalista Cláudia Barcellos, de 53 anos.

Imagem ilustrativa da imagem O desafio de ser autista

Quem não conhece o diagnóstico de Andrew acha que é apenas mais um adolescente tímido. Porém, a mãe faz questão de explicar o comportamento do filho, que tem como regra a rotina, e como chegou ao diagnóstico, o que faz com que Andrew seja melhor compreendido em alguns ambientes, como o escolar.
Na infância, a mãe observa que o filho demorou mais que o esperado para desenvolver a fala. O argumento do médico da família na época era que a dificuldade era natural em crianças bilíngues. Andrew fala inglês fluente com o pai Terry Hill, de 73 anos, que não tem domínio da língua portuguesa. “Português é só para quem é inteligente”, brinca em inglês.
Cláudia, que fixou residência em Apucarana há cerca de 4 meses, recorda que o filho sempre apresentou um comportamento único desde os primeiros anos de vida, como verdadeira obstinação por objetos giratórios, entre eles, o ventilador de teto do apartamento e uma turbina eólica, que ficava em Toronto. Hoje em dia, este comportamento não faz mais parte da rotina do adolescente. “Diferente das outras crianças, ele não costumava brincar com diversos brinquedos, mas pegava apenas um e passava horas analisando”, recorda.
Apesar de ser percebido como uma criança peculiar, a mãe revela que o diagnóstico custou a chegar. Entre as razões estão as próprias habilidades de Andrew, que tem um vocabulário extremamente polido, o gosto pela leitura e interesses por assuntos considerados de adultos, como história, geografia, cultura e política. Mas, como todo adolescente, ele também adora passar horas em frente ao videogame.
Por outro lado, a mãe observa que o filho tem baixa lateralidade, ou seja, vive esbarrando nos móveis. “O meu dedinho (minguinho) do pé vive doendo”, revela Andrew. Para tentar transpor essa dificuldade, o adolescente pratica atividades esportivas, entre elas, natação.
Andrew também tem dificuldade de interagir com outros adolescentes e, consequentemente, fazer amizades. “Eu não consigo ir até ninguém, as pessoas têm que vir até a mim”, revela. Outro detalhe sobre Andrew, é que, apesar de boas notas, não consegue escrever de forma cursiva.
A mãe observa ainda que o filho tem dificuldade de organização e realizar diversas atividades ao mesmo tempo, inclusive tarefas de diversas disciplinas no mesmo dia. “Recentemente, ele deixou de fazer uma atividade e teve a atenção chamada na frente dos colegas de sala, o que provocou uma crise emocional. Eu liguei na escola e expliquei o diagnóstico novamente. Por isso, o diagnóstico é importante porque te dá argumento”, revela.
O que Cláudia não esperava da direção do Colégio Estadual Cerávolo era a receptividade com o tema. Nos próximos dias, alunos e professores vão participar de palestras sobre autismo, como forma de conscientização.

Um transtorno com diferentes características
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) manifesta de diferentes maneiras. De acordo com a psicóloga Renata Andrade Bueno, que atua no Centro de Apoio Multiprofissional Escolar (Came), braço da Autarquia Municipal de Educação, - que está promovendo diversas ações neste mês por causa do dia Autismo, comemorado mundialmente no dia 2 de abril -, cada autista tem sintomas diferentes uns dos outros. Porém, de maneira geral, e atendendo aos critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), ela explica que o TEA apenas se faz quando o paciente apresenta algumas características específicas como a dificuldade em ter interações sociais, entre outras. (Ver gráfico)
A especialista observa que existem outros sintomas podem estar associados ao autismo e merecem atenção, como deficiência intelectual ou altas habilidades, déficit de atenção e hiperatividade, dificuldade motora, dificuldade na fala, entre outros. “O autismo é classificado de acordo com a gravidade dos sintomas e existem três níveis de classificação: grave, moderado e leve (este, antes era chamado de Asperger) ”, explica.
Sobre a incidência do transtorno no Brasil, ela diz que estimativas apontam cerca de 2 milhões de autistas. “Contudo, os dados são vagos, principalmente porque para se obter o diagnóstico leva um tempo entre a observação clínica e as intervenções propostas”, ressalta.
Por isso, apesar de ideal, nem sempre o diagnóstico acontece na infância. “O diagnóstico feito na infância é fundamental para se traçar estratégias de estimulação e tratamento eficaz de acordo com cada caso”, sublinha.
Porém, segundo ela, é comum mães de crianças autistas relatarem o diagnóstico tardio. Entre os motivos está o desenvolvimento da fala, que em muitos não é associado ao autismo, uma vez que cada criança tem seu próprio tempo de desenvolvimento. “Isso é verdade, porém é fundamental salientar a importância da puericultura e do olhar atento do pediatra, enfermeiro e profissionais da saúde que atendem a criança, porque existem peculiaridades no desenvolvimento infantil que não dependem do tempo, mas de uma condição, que é o caso do autista”, diz.
Incidência - A incidência do transtorno é quatro vezes maior entre meninos. Porém, a psicóloga avalia que o diagnóstico em meninas é mais difícil de ser detectado do em meninos. O motivo é justamente os critérios utilizados para diagnosticar o autismo ser baseados nos comportamentos, sobretudo masculinos. (VANUZA BORGES)

O autismo na vida adulta
Quando o diagnóstico não vem na infância, a tendência é a pessoa tornar-se um adulto com amizades restritas, assinala a psicóloga Renata Andrade Bueno. “Essas pessoas também costumam a ficar mais isoladas, são vistas como antissocial, muito tímidas, ingênuas, metódicas e ainda mais sensível a barulhos, luzes e até a toques. Geralmente, o autista adulto tem dificuldade em compreender regras subliminares, entender metáforas e ironias, manter contato visual, dar continuidade a uma conversa. O importante sempre é saber respeitar suas limitações e diferenças”, pontua.
De acordo com a especialista é possível levar uma vida “dentro dos padrões” de normalidade propostas pela sociedade. “Porém, se conseguirmos entender que o autista necessita de cuidados especiais e de um olhar compreensivo, ele conseguirá sim fazer compras, ir ao cinema, lanchonetes, fazer uma faculdade, enfim, conviver de forma harmoniosa na sociedade”, diz.
Para isso, o primeiro passo é a conscientização da sociedade com relação ao assunto, para que aceite as diferenças e peculiaridades presentes neste transtorno, e possa, de fato, receber o autista da maneira que ele merece.