Nunca se viveu tanto no Brasil. A expectativa de vida hoje é de 75 anos. Em 2030, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), será de 78 anos. Os números revelam que o envelhecimento da população é um fato, e não só de pessoas acima de 65 anos, chamada de terceira idade. Atualmente, uma nova fase começa a ganhar expressividade, a “quarta idade”, que abrange o grupo de pessoas com mais de 80 anos.
Inclusive, um projeto de lei que aguarda sanção presidencial prevê prioridade absoluta para este público nos serviços de saúde, uma vez que pessoas com 80 anos ou mais apresentam uma diferença de capacidade e mobilidade, e dificuldades em caráter mais urgente dos que aqueles que ainda estão nas faixas dos 60 e 70 anos. A lei, na verdade, é uma emenda ao Estatuto do Idoso, que não diferencia as especificidades de cada idade.
No panorama de envelhecimento, ainda segundo dados de IBGE, atualmente, a população idosa, que é aquela com pessoas com 65 anos ou mais, representa 8,46% dos brasileiros. Daqui a 13 anos, esse percentual irá subir para 13,44%. No Paraná,9,20% da população é formada hoje por idosos. Em 2030, esse número irá saltar 15,13%.
A população denominada “quarta idade” também irá avançar. Atualmente, no Brasil, o grupo etário entre 80 a 84 anos representa 0,94% da população; entre 85 a 89 anos, 0,51%; e acima de 90 anos, 0,30%, totalizando no geral 1,75% da população. Em 2030, os números serão outros. Pessoas, entre 80 a 84 anos, corresponderão a 1,55%. Já as com idade entre 85 a 89 anos irão corresponder a 0,81%, e as com mais de 90 anos serão 0,57%, representando 2,93% da população.
Mas chegar à quarta idade não é um privilégio nem está associado a uma rotina pautada por remédios e limitações físicas e psicológicas. Prestes a entrar na quarta idade, o médico recém-aposentado Osmundo Pereira Saraiva, de 79 anos, é um exemplo de quem se programou ao longo de anos para chegar com saúde e independência.
Para Osmundo, que mora desde a década de 1960 em Apucarana, viver bem a terceira ou quarta idade envolve planejamento e estilo de vida. “Não dá para pensar em qualidade de vida de um dia para outro. É preciso adotar um estilo de vida saudável”, acredita.
Foi o que ele adotou ainda na juventude, época que foi atleta de remo. Com o passar do tempo, trocou o remo pelas partidas de futebol com os amigos, o que não impediu algumas lesões, o que o fizeram abandonar a atividade. Porém, logo encontrou outra paixão, o tênis, que jogou durante anos, mas uma lesão no joelho também o fez deixar a prática. “Hoje em dia, eu faço musculação e pilates, porque o corpo vai perdendo massa muscular e também a flexibilidade”, justifica.
Além do corpo, Osmundo sempre dedicou atenção especial à mente. “Tenho paixão por livros e filmes, em especial de guerra”, revela. Em sua biblioteca particular, ele mostra inúmeros títulos de livros e filmes, que estão catalogados cuidadosamente. São esses hobbies que o ajudam a manter-se ativo. “Acredito que temos que nos programar para viver bem em qualquer fase da vida. Isso incluiu cuidados com o corpo e com a mente, além da programação financeira também, porque temos que reconhecer que não vamos conseguir exercer a profissão como antes”, diz.
E mais, além da programação, outro detalhe que ajuda a viver melhor é: “Não vamos conseguir mudar o mundo”. Esse pensamento, segundo ele, evita aborrecimentos. Além disso, Osmundo defende a autonomia como elemento indispensável para sentir-se bem em qualquer fase. “Até hoje dirijo o meu carro”, diz.
Disposição para viver bem
Quem chega à quarta idade ou está prestes a entrar nessa faixa etária tem algumas características em comum. Três, em especial, chamam atenção: disposição, tranquilidade e alegria de viver. Aos 81 anos, a artista plástica Hiltrud Frisch Carvalho, de Apucarana, garante: “Eu me esqueço que tenho tudo isso de vida. Eu me sinto muito mais jovem”. Pós-graduada em piano, ela também tem outra paixão, a pintura, técnica que ensina em seu ateliê aos alunos e aperfeiçoa em Londrina, onde é aluna uma vez por semana.
“Levanto às 6h30, ajudo na loja, faço atividade física três vezes por semana e dou aulas de pintura em meu ateliê. Acredito que o segredo de chegar bem aos 80 anos é fazer o que gosta. Eu amo o que faço”, garante.
Além dessas atividades, ela organiza passeios culturais para a Europa com seus alunos. “Nós visitamos lugares onde viveram grandes pintores, o que faz entender melhor cada artista”, diz. Porém, um em especial chamou sua atenção, o Moulin Rouge, em Paris, na França. “Me emocionou muito por ser um espaço em que vários artistas se reuniam”, diz.
Outra amante do que faz é a araponguense Geni Caminho Vendrametto, 76 anos. Ao lado do marido Antônio Vendrametto, 78, ela prepara centenas de doces finos por semana, além de bolos. A produção varia de 1,5 mil a 3 mil docinhos por semana. Na cozinha, Antônio faz a massa e ela dá o acabamento, além de fazer os bolos, em média 8 por semana.
Os dois contam com apenas um funcionário para embalar as iguarias. Para dar conta do recado na cozinha e viver bem, dona Gê, como é conhecida, revela: “É preciso ter disposição, alegria e pensar positivo sempre, além de gostar do que faz, se não gostar, nada funciona”.
Além disso, ela garante que também não descuida da alimentação, apesar de não seguir nenhuma dieta regrada.