Desde os tempos pré-coloniais, a agricultura tradicional tinha como hábito a troca de sementes crioulas, que eram conservadas, selecionada e melhoradas pelos agricultores. Das plantas nativas deixadas pelos indígenas, como o milho, feijão, mandioca e abóbora aos produtos que vieram de outros continentes, como o trigo e o arroz, a prática garantia a disseminação de cultivares. Com a revolução verde, iniciada na década de 50, as sementes melhoradas, adubos e defensivos químicos mudaram o perfil da agricultura e desestimularam essa tradição.
Porém, existe ainda um número considerável de produtores rurais da agricultura familiar, que mantêm plantas cultivadas que só foram melhoradas pelas mãos de agricultores. Como a legislação não permite que sementes crioulas sejam comercializadas, as comunidades vêm se organizando em torno de projetos específicos que visam à caracterização e avaliação das sementes, e aquelas que se destacam possam ser utilizadas pela agricultura familiar através de trocas, entre agricultores.
No Vale do Ivaí, um desses projetos é realizado pelo Instituto Federal do Paraná, campus de Ivaiporã, que mantêm um banco de sementes crioulas com mais de 180 variedades. Segundo Ricardo Souza, coordenador do Curso Técnico em Agroecologia do campus, o projeto visa o resgate da diversidade vegetal e contribuir para a soberania agroalimentar, além de possibilitar a autonomia dos agricultores.
“Na verdade, embora o projeto tenha apenas dois anos, aos poucos através de trocas com os agricultores, o banco de sementes foi acumulando um patrimônio genético fabuloso. A ideia é que, com a semente crioula, o agricultor familiar tenha um custo menor na sua produção evitando gastos com a semente melhorada”, explica Souza.
BANCO
O bolsista do IFPR, João Batista de Souza Junior, formado em Técnico em Agroecologia é um dos responsáveis pelo programa. Ele explica que o projeto busca resgatar a semente, armazenar e incentivar o uso pela agricultura familiar.
“As sementes melhoradas (comerciais) pertencem às empresas e o agricultor tem que todo ano comprar nova semente. Já às sementes crioulas, por lei, são um patrimônio da humanidade, então o agricultor poderá produzir sua própria semente e economizar melhorando a condição de vida da família. Além disso, as sementes crioulas na maioria das vezes, são mais rústicas e mais resistentes ao ataque de doenças”, explica o bolsista João Batista.
No laboratório, as sementes passam por analise de germinação, de transgenia, são catalogadas e depois armazenadas a vácuo.
“Também realizamos alguns trabalhos que buscam melhorar o desempenho das sementes. Por exemplo, utilizando homeopatia, óleos essenciais e produtos naturais”, enfatiza João Batista.
O instituto possui ainda um campo de avaliação de desempenho das sementes crioulas. “Agora, por exemplo, nos vamos avaliar uma semente de tomate da região norte e conferir o comportamento da planta aqui no sul do país”, comenta.