Dos 26 municípios que integram a Associação dos Municípios do Vale do Ivaí (Amuvi), 19 não têm rede de esgoto, o que corresponde a 74%. Outro dado surpreende é que apenas um município, Apucarana, conseguiu atingir a Meta do Milênio, 81%. A proposta da Organização Mundial de Saúde (OMS) para Saneamento era que o serviço chegasse a 75% da população das cidades até 2015. A rede e tratamento de esgoto é considerada fundamental na estrutura do saneamento básico, que inclui também acesso à água tratada e banheiro.
A falta de saneamento implica na proliferação de doenças, além de diarreias e infecções intestinais, como dengue, zika vírus e chikungunya, que são transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti. O assunto este ano também veio à tona com a Campanha da Fraternidade, que adotou como tema “Casa comum, nossa responsabilidade”.
No levantamento feito pela Tribuna com base em dados oficiais da Sanepar, dentre os 19 municípios que não contam com o serviço de coleta e tratamento de esgoto, quatro estão em fase de implantação: Califórnia, Faxinal, Jardim Alegre e Lunardelli. A previsão nesses municípios é que o serviço chegue até 2017.
De acordo com Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), 17% da população de Califórnia terá acesso ao serviço no próximo ano. O investimento é de R$ 3 milhões. Em Faxinal, com investimentos de R$ 9,23 milhões, a rede coletora irá atender 66% da população urbana. No caso de Jardim Alegre, o serviço vai atender 35% da cidade quando as obras, avaliadas em R$ 5,77 milhões, estiverem concluídas.
No próximo ano, a expectativa é que os serviços também sejam implementados em Lunardelli. O investimento de R$ 3,65 milhões será suficiente para a rede de 10,5 km e atender 38% da cidade.
AMPLIAÇÃO
Segundo a Sanepar, os serviços de coleta e tratamento de esgoto vão ser ampliados em Ivaiporã, que passará de 13,03% para 95% em 2027. As obras de ampliação estão previstas para iniciar em 2018 e custarão R$ 60 milhões.
Já para Jandaia do Sul, que hoje tem 48,12% da cidade atendida, a previsão é que o serviço chegue a 85% em 2017, quando as obras deverão ser entregues. O projeto está orçado em R$ 14,675 milhões. Outro município que terá o serviço estendido é São João do Ivaí, que passará dos atuais 18,93% para 68%. O valor investido está na casa dos R$ 4,68 milhões.
Saneamento desafia munícipios
Dos 26 municípios do Vale do Ivaí, dois apenas não são atendidos pela Sanepar: Marumbi e Kaloré. Para o chefe de gabinete de Marumbi, Antônio Carlos Mangolin, a maior dificuldade do município para a implantação do sistema de coleta e tratamento de esgoto é a falta de recurso. “Já fizemos o plano de saneamento básico e enviamos ao Governo Federal e estamos aguardando um retorno. A expectativa é começar a implantação do serviço este ano, mas precisamos de recursos porque é uma obra cara”, diz.
Na avaliação do prefeito de Lidianópolis, Celso Antônio Barbosa (Magrelo), o alto custo de implantação é o motivo para as pequenas cidades não terem o serviço implantado. “Nós não temos estrutura financeira e dependemos do suporte do Governo Federal e da Funasa para que o serviço seja implantado. Uma infraestrutura desta, para ser feita em Lidianópolis, ultrapassa R$ 6 milhões, o que é impossível para a prefeitura sem a parceria”, comenta Magrelo.
Em Jardim Alegre, a implantação do sistema começou a ser executada em 2013 com recursos federais, através do Programa de Aceleração do Crescimento/Fundação Nacional de Saúde (PAC2/Funasa) na ordem de R$5,7 milhões.
Falta de serviço gera prejuízos à população
O médico Hugo Leonardo Gnecco, coordenador do pronto socorro do Hospital da Providência, de Apucarana, alerta que locais sem saneamento básico é comum água empoçada, que contribui para a proliferação do mosquito da dengue, por exemplo. “O lixo exposto e também o esgoto a céu aberto são propícios para presença de ratos, que transmitem a leptospirose. E ainda temos o problema das parasitoses, em geral, hepatite A, cólera, entre outros”, sublinha.
O médico comenta que somente na última semana 15 novos casos de dengue foram atendidos no Pronto Socorro do Hospital, além de duas internações pela doença. “O custo social de qualquer uma dessas doenças é grande, principalmente se tiver óbito de pacientes jovens por doenças que são evitáveis”, argumenta.
Ainda segundo o Gnecco, em casos de dengue, a pessoa terá febre alta e ficará dias sem trabalhar. “Já em casos de dengue hemorrágica, o paciente além de se ausentar do trabalho, vai precisar de um leito na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), gerando maior custo para a Saúde”, assinala.
De acordo com o estudo “Benefícios Econômicos da Expansão do Saneamento Brasileiro”, desenvolvido pelo Instituto Trata Brasil, as prefeituras poderiam economizar muito em saúde, especialmente pela redução das diarreias, o setor produtivo ganharia com o aumento da produtividade do trabalhador, além de ganhos no turismo onde estima-se que o país poderia criar até 500 mil novos postos de trabalho. “Conseguimos identificar também que há uma diferença de 13,6% entre o valor de dois imóveis, um com e outro sem acesso ao saneamento”, diz Édison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil.