Elogios, promessas e conversas constantes via aplicativos para celulares e redes sociais. Foi assim que três adolescentes, duas meninas de Apucarana, de 15 e 13 anos, e um adolescente de Arapongas, de 15 anos, decidiram sair de casa. Em duas situações, as vítimas conheceram seus “amigos”, que são considerados aliciadores pela polícia, exclusivamente pela internet. Os casos aconteceram num período de 15 dias e alertam para os perigos reais que rondam crianças e adolescentes nos meios virtuais.
No episódio mais grave, o adolescente foi levado de Arapongas até Ilhabela, litoral norte paulista, onde foi encontrado pelas polícias civil e militar após denúncia e investigação da família, que descobriu o aliciador ao olhar com atenção a página dele no Facebook. “Identificamos que um homem, mais velho, que não conhecemos começou a fazer comentários e elogiar os posts dele”, revela a irmã, de 19 anos, que não terá a identidade revelada para preservar a vítima.
Segundo ela, o contato começou após o adolescente se inscrever em um site de relacionamento pela internet. O aliciador encontrou o perfil do garoto e iniciou o contato, primeiramente via Facebook e depois WhatsApp, aplicativo de troca de mensagens instantâneas via celular. “O meu irmão mudou completamente num período de dois meses. Era outra pessoa”, avalia.
Para justificar o uso constante do celular e das redes sociais, segundo ela, o irmão inventou que estaria namorando. “Ele sabia de tudo que se passava em casa. Quando brigávamos, por coisa banal de irmãos, ele sempre dava apoio ao meu irmão. Aproveitava para fazer promessas de uma vida melhor, que ele seria jogador de futebol. Dizia que queria ele como um filho, mas não era verdade”, afirma.
Ainda segundo a jovem, quando o aliciador veio a Arapongas, o seu irmão inventou que a namorada teria vindo a cidade e estava na casa de uns parentes. “Pegou uma mochila e saiu. Disse que estava levando roupa de banho, porque tinha piscina na casa. Não desconfiamos de nada”, confidencia.
Da história, ela garante que ficou uma lição: a atenção às redes sociais. “Ele percebeu que foi aliciado. Ele não queria ser um pai, queria abusar do meu irmão. Já tinha várias passagens por esse tipo de crime. Só peço que não julguem, mas fiquem atentos”, alerta. Depois de uma semana, o garoto retornou para casa.
Já nos casos de Apucarana, uma adolescente, de 13 anos, saiu de casa para morar com o namorado. O outro caso, uma garota, de 13 anos, que tem idade mental menor que a idade, foi convencida por um homem, de 21 anos, também a deixar a casa dos pais e morar com ele. O rapaz foi preso e vai responder por estupro de vulnerável.
AVANÇO
O coordenador do Centro de Atenção Psicossocial Infanto Juvenil (Caps I), de Apucarana, o psicólogo Thiago Eduardo dos Santos Gimenes, observa que é fato o aumento de casos de abusos, violências e várias outras formas de violação dos direitos das crianças e adolescentes com acesso às redes sociais. “Percebemos isto tanto no convívio com a rede de proteção social, quanto em nosso dia a dia de serviço especializado em saúde”, sublinha.
Para evitar que a criança ou adolescente seja atraído por criminosos nas redes sociais, o psicólogo, assim como as conselheiras tutelares Maria Estela Flora Bossato e Naiara Oliveira, de Apucarana, defende que o “instrumento” mais eficaz, hoje em dia, para uma boa utilização e diminuição dos riscos na internet, é a vigilância dos pais e responsáveis.
“A vigilância deve ocorrer de forma participativa no sentido mesmo de participar dos momentos de “navegação”, se mostrando interessado no que o filho está fazendo, com quem está estabelecendo contato, e que tipo de contato está sendo mantido’, aconselha.
Casos devem ser denunciados
As conselheiras tutelares Maria Estela Bossato e Naiara Oliveira orientam, além do acompanhar de perto os filhos, quando perceber situações de aliciamento, abuso ou mesmo conversas estranhas, os pais ou responsáveis devem denunciar à polícia. “Se tiver uma suspeita de criança ou adolescente sendo aliciado, precisa ser denunciada para que possa abrir investigação, porque a maioria dos casos são pegos através de denúncias”, diz Naiara.
“O nosso conselho aos adolescentes é que, ao desconfiar de qualquer coisa, conte a situação para um adulto de confiança e peça para que converse como se fosse ele. A maioria dos casos descobertos ocorrem dessa forma”, avalia Maria Estela. Elas observam ainda que por mais que os adolescentes dizem que queiram viver aquela situação, não têm discernimento e, por isso, os aliciadores vão responder criminalmente por seus crimes.
Diálogo é essencial
Na avaliação das conselheiras tutelares Maria Estela Bossato e Naiara Oliveira e do coordenador do Caps I, de Apucarana, Thiago Eduardo Gimenes, é difícil ter o controle total das ações dos adolescentes. Porém, os profissionais acreditam que que quando vínculo afetivo é estreito e o diálogo constante, os filhos se sentem mais seguros a compartilhar seus medos e inseguranças, uma vez que os agressores se utilizam das fragilidades do menor para criar uma relação de afeto.
Segundo Gimenes, os abusadores tendem a criar dependência afetiva. “Criam uma dependência afetiva no jovem quando demostram interesses por seus problemas, quando escutam as suas queixas, diferente do que ocorre muitas vezes dentro do próprio seio familiar, onde se sente desamparado. Ao final vemos os casos de abuso sexual concretizados por encontros “cara a cara””, pontua.
As conselheiras e o coordenador do Caps I recomendam a observar o comportamento dos filhos, em caso de alteração, tem que buscar os motivos que levaram a alteração.
Maria Estela e Naiara complementam que a mudança de comportamento é um dos sinais de alerta. Por isso, é importante ficar atento as notas e no jeito de agir, se está mais calado, introspectivo ou falante.