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Reencontro com o passado

Vanuza Borges

| Edição de 10 de setembro de 2017 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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Um dos acontecimentos mais emblemáticos da história apucaranense aconteceu em 22 de outubro de 1987, quando a Prefeitura foi invadida a comando do capitão Luiz Fernando Walther de Almeida, hoje militar aposentado do Exército. O cerco ao prédio durou, no máximo, 15 minutos, mas repercutiu em todo o território nacional e parou a Assembleia Constituinte, que estava em discussão no Congresso Nacional. Apucarana, naquela noite, foi notícia no Jornal Nacional, que destacou que após possível “levante militar”, presidente José Sarney concedeu reajuste de 25% aos militares.

Imagem ilustrativa da imagem Reencontro com o passado


Na última quinta-feira, capitão Walther, como ficou conhecido, voltou a Apucarana, para participar do Desfile Cívico de Sete de Setembro. Após desfilar junto com antigos comandados, visitou pela segunda vez à Prefeitura de Apucarana – a primeira ocorreu em 2004 após visitar um parente em Londrina -, onde fez questão de ressaltar os motivos que o levaram a cercar e invadir à Prefeitura. “O Exército estava em situação de penúria”.
Ao se aproximar do prédio, aos 64 anos, ele conta em detalhes como tudo aconteceu naquele dia. Recorda as ruas onde as viaturas se posicionaram. Eram quatro no total. Ao olhar em direção ao prédio diz: “Os soldados entraram e ficaram com os fuzis apontados nas janelas. Eu entrei e procurei o gabinete para entregar meu manifesto”.
Sobre a polêmica de ter chutado a porta, ele garante: “Como estava segurando a metralhadora, bati com a ponta do coturno em baixo na porta, mas não chutei”.
A pouco mais de um mês para completar 30 anos da ‘invasão’, ele garante que a gratidão à cidade o fez retornar. O convite surgiu de velhos companheiros de farda, que se comunicam através das redes sociais.
Sem mágoas do Exército ou da Igreja Católica, que repudiou sua conduta, o coronel, como atualmente é chamado, reconhece seu feito e garante que não se arrependeu da decisão tomada, que afetou não só sua carreira – ele deveria ter se aposentado, no mínimo como coronel, mas por conta das punições chegou até a patente de tenente-coronel -, mas a família também. Walther garante que não há espaço para a retomada do poder pelo Exército, apesar do Exército sempre estar ao lado do povo. Confira os principais trechos da entrevista.
 
Tribuna – O que motivou a sua vinda neste Sete de Setembro a Apucarana?
Coronel Walther - É reencontrar pessoas de uma época que foi cara para mim. Aqui, em Apucarana, eu fiz um protesto, que me custou muito caro. É o dia da pátria. Eu estou aqui para referenciar à pátria e os soldados. É uma oportunidade para eu agradecer publicamente, porque eu fui muito ajudado aqui. Eu fui preso em flagrante e fiquei praticamente um ano e meio afastado do convívio da família. E minha família foi muito ajudada aqui em Apucarana. Então, eu tenho uma gratidão muito grande, que nunca publicamente manifestei.
Tribuna – Na época o que te motivou a invadir à Prefeitura?
Coronel Walther - Na época, negociei por causa dos baixos salários e condições de assistência médica. Eu me meti na política local sem pedir licença. Baguncei o coreto. Não tinha propósito político nenhum. Lutei pelas condições de saúde e salariais da minha tropa. Era penúria. Um caixa do Banco do Brasil ganhava mais que o comandante do Batalhão. Hoje, os militares estão tendo condições de vida digna.  Eu fui preso, julgado e condenado. Num dia dedicado à pátria, eu vim para olhar nos olhos e dizer que não usei ninguém para propósito pessoal meu. Não fui um farsante. Os generais da época foram negligentes com as condições da tropa. Um comandante zela pela hierarquia e disciplina tanto quanto pelas condições de vida digna e de saúde de seus comandados.
 
Tribuna – Atualmente, o salário dos militares acumula perdas e o FUSEx (Fundo de Saúde do Exército) também enfrenta problemas. A situação atual é semelhante à da época?
Coronel Walther - Não. Não é. Pode ser, se agravar, chegue àquilo, mas nós estamos muito distante daquela época. 
 Tribuna - Hoje em dia, tem espaço para um protesto do mesmo nível que foi feito em 1987 em Apucarana?
Coronel Walther - Aquele protesto que eu fiz nunca teve espaço. Tanto que fui punido com o rigor da lei penal militar. E paguei caro. Não é que paguei caro, paguei o preço. Eu não vejo tanto mérito do protesto quanto vejo em ter assumido as consequências e ter pagado a conta como eu paguei. Nunca aceitei a tese, como advogados sugeriram, que eu alegasse problemas mentais. Uma pessoa não pode estar boa de manhã e à tarde não. É uma questão de ética, de moral. Claro que a minha decisão sempre refletiu na família.
 
Tribuna - Qual lição que tirou daquele protesto há 30 anos?
Coronel Walther - Que daquele ato não tenho arrependimento nenhum. Para não dizer que não tenho nenhum, pensando depois no comandante do meu batalhão (Aricelso Limaverde),  me arrependo. Só nesse momento. Quando penso em qualquer outra coisa, não me arrependo.
 
Tribuna - O aumento aconteceu em decorrência do protesto?
Coronel Walther - Tinha uma entrevista do Bresser Pereira, que era ministro da Fazenda, concedida à Folha de São Paulo, que deixa claro que tinha negociações em curso, mas não era aquele aumento que foi concedido. Falou que estava negociado. Não falou cifras. Disse depois que o presidente se antecipou e que aquele aumento era um absurdo. Aquele aumento só aconteceu por causa do protesto.
 
Tribuna - Na época falaram é a volta da Ditadura. Atualmente, uma parcela da população, descontente com a política, cogita a volta do Regime Militar. Essa volta é possível?
Coronel Walther - Não vai voltar. São outros tempos. Não há crise militar. Quem fala pelo Exército é o comandante do Exército, o general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, que deixou claro que o Exército nunca se afastou do povo. Então, onde estiver o povo brasileiro, o Exército vai estar.
 Tribuna – Então, o Exército seria uma alternativa para esse desgaste político?
Coronel Walter - Ele (o comandante do Exército) já disse que não é uma alternativa. O País vai ter que resolver. E eu diria mais: esse povo todo que está envolvido (em corrupção), da mesma forma que eu transgredi e fui punido, vai ter que pagar pelos atos que praticados. Isso talvez não estivesse acontecendo e passou acontecer agora.
 
Tribuna - Hoje, como solução para essa crise política, muitos acreditam que o Bolsonaro seria a melhor opção para a presidência. É?
Coronel Walther - O Bolsonaro é uma opção. Ele estará na questão eleitoral de 2018 e o povo vai decidir. Eu, realmente, sou amigo pessoal do Bolsonaro. Ele faz uma política. Eu não fui para a política. Não quis. Preferi continuar no Exército. Mas, numa autocrítica, eu não seria capaz de fazer política como ele faz. Praticamente sem dinheiro. Então, ele é um político íntegro. Agora, para ser presidente da república, é o povo que vai escolher.