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Reféns do medo no Vale

Vanuza Borges

| Edição de 15 de maio de 2016 | Atualizado em 02 de dezembro de 2016

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A onda de assaltos a bancos no Vale do Ivaí assusta os moradores das pequenas cidades, que veem a tranquilidade do interior ceder ao medo da violência. As quadrilhas especializadas neste tipo de ação sempre usam a mesma tática para escapar da polícia, além de usar armamento pesado, fazem “cordão” humano em frente às agências e colocam reféns como “escudo” no veículo usado para fuga.

Imagem ilustrativa da imagem Reféns do medo no Vale

“O fuzil, por diversas vezes, ficou apoiado no meu ombro”, recorda o empresário Josir José Lahmann, 50 anos, que foi refém durante um assalto às agências do Banco do Brasil e da Cooperativa de Sicredi, em Borrazópolis.

Após o episódio, que ocorreu em julho do ano passado, ele nunca mais foi ao banco com a mesma tranquilidade. “A gente fica mais cismado. Procuro não ir mais perto do horário de fechamento nem de manhãzinha, quando vai abrir o banco. Vou no horário de almoço que tem mais gente”, revela.

Josir justifica a mudança de comportamento. “A estratégia deles (assaltantes de bancos) é de manhã ou no fechamento”, observa. Ele confessa que, apesar de morar numa pequena cidade do interior, não acredita em sossego diante dos casos recentes.

No dia do assalto, ele havia saído da empresa, que fica a menos de cinco minutos de carro do Banco do Brasil, para completar o valor de um boleto, para a filha caçula Luana, de 19 anos. “Assim que entrei na agência, escutei o barulho. Até achei que alguma coisa havia batido do lado de fora, mas aí vi um cidadão encapuzado”, relata.

Nesta hora, ao lado da filha, ele se jogou no chão. Eles haviam chegado na agência às 14h50 e estavam aguardando para usar o caixa eletrônico. “Eu fiquei mais preocupado com ela do que comigo. A gente sabe se controlar mais. Na hora que disparam os tiros, a gente deitou, no que deitamos, (tinha umas cinco pessoas), eu fiquei na frente e o bandido me pegou e colocou o fuzil nas minhas costas”, relembra.

O assaltante, com o fuzil no ombro de Josir e uma metralhadora a tiracolo, entrou no banco. Enquanto isso, a filha estava deitada no chão. “Eu só falava para ela ter calma”, revela. Mesmo com os braços levantados, ele tentava olhar para a filha e com as mãos acenar para ela ficasse calma. “Ela tremia o tempo todo. Eu fiquei muito preocupado, porque ela perdeu a mãe há seis anos. Seria muito difícil, para ela de novo”, sublinha.

Ao sair do banco, o criminoso mandou todo mundo fazer um cordão. Ele ficou ao lado do bandido. Já a filha estava do outro lado do bandido e era a segunda do cordão humano. O momento mais tenso, segundo Josir, foi quando a polícia chegou. “Ele gritou se a polícia reagisse, alguém iria morrer. Nessa hora, ele deu dois tiros. O meu ouvido tiniu”, detalha.

No final, Josir conta que o bandido pegou o vigilante e o liberou, mandando ir para o cordão também. “Durante todo o tempo, eu estava mais preocupado com ela. Eu ficaria mais preocupado se ela estivesse sozinha, mas eu estava lá vendo tudo que acontecia”, assinala.

Imagem ilustrativa da imagem Reféns do medo no Vale

Experiência traumática

No cordão humano, ao lado de Josir José Lahmann, estava a atendente de lotérica, Lourdes Fachi, 48 anos, que ia diariamente à agência fazer serviços de bancos. “Ela também tremia o tempo todo”, recorda Josir. Assim como para a filha, ele também pedia para que ela ficasse calma. “Só conseguia pedir a Deus, para que meus filhos não fosse até lá”, revela Lourdes.

Após o susto, ela ficou uma semana sem fazer os serviços de banco, mas depois retomou a rotina. “Têm algumas coisas que temos que passar. Acho que hoje estou tranquila porque não agrediram ninguém”, acredita.

Entretanto, apesar da tranquilidade emocional para conseguir retomar o trabalho, ela confessa que por um bom tempo quando ouvia barulho de rojão se assustava. “Hoje em dia, eu fico mais atenta quando eu saio para ir ao banco. Sempre olho com atenção na rua e quando estou chegando ao banco”, confessa.

Sobre a experiência do assalto, ela revela que só conseguia pedir a Deus para que seus filhos não aparecem ali e que tudo acabasse logo.

“Fico esperando a próxima vez”, diz vigilante que foi refém

A ação dos criminosos na região é constante. No ano passado, foram registrados vinte ataques a agências bancárias, entre furtos e assaltos, em doze municípios. Vários passaram pela situação mais de uma vez. Em Rosário do Ivaí, por exemplo, foram duas tentativas em novembro. Na última, criminosos, após uma ação frustrada na agência do Bradesco e também dos Correios, invadiram uma festa de casamento e fizeram mais de vinte reféns, sendo dois deles usados como “escudos” humanos.

Outro município que passou por momentos de terror foi Borrazópolis que registrou, além do assalto em julho, por situações em outubro e novembro. O assalto, entretanto, foi a situação mais grave, com reféns na mira dos bandidos por 40 minutos. Na ocasião, os criminosos assaltaram o Banco do Brasil e também a Cooperativa Sicredi, que ficam uma ao lado do outro em frente à Praça da República. Neste ano, três cidades registraram ataques de bandidos. A última situação, em fevereiro, foi em Rio Branco do Ivaí, onde bandidos também usaram clientes e funcionários do Banco do Brasil como reféns.

Para um vigilante, de 33 anos, que por motivo de segurança não vamos identificá-lo, as quadrilhas agem porque não encontram resistência policial à altura, uma vez que o quadro está defasado na região. “Eu fico esperando a próxima vez que vai acontecer um assalto”, diz. Ele, que atua na área de vigilância há anos, passou pela experiência de ser refém. “Eu já esperava que isso poderia acontecer. Era só uma questão de tempo, para que os bandidos percebessem a fragilidade da segurança. Estamos à mercê do crime, além disso os bancos não investem em blindagem e segurança”, reclama.

Sobre os momentos que passou na mira de bandidos, o vigilante revela que chegou a pensar no pior, mas não cogita em mudar de profissão.

“Eu gosto da minha profissão. Não quero mudar, só quero mais segurança para trabalhar, como armamento mais pesado e blindagem no banco”, diz. Depois do assalto por qual passou, ele, que já adotava uma série de medidas de segurança, está ainda mais cauteloso, mesmo morando em uma cidade pequena. “Antes se chegar em casa, verifico se tem algum veículo diferente na rua, se tiver eu checo a placa, para ver se tem alerta de furto ou roubo. Dou mais uma volta no quarteirão”, diz.