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Trabalhadores sem fronteiras

Renan Vallim

| Edição de 07 de maio de 2017 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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As discussões em Brasília torno da Reforma Trabalhista vêm aumentando cada vez mais a atenção para novas formas de relações entre patrões e empregados. Os próprios parlamentares utilizam exemplos de outros países para basearem-se nos debates acerca do assunto. No entanto, as diferenças entre o Brasil e outras nações ainda não estão muito claras para boa parte das pessoas. Por isso, a Tribuna conversou com apucaranenses que tiveram a experiência de trabalhar em outros países para mostrar como as relações trabalhistas acontecem no exterio

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Anderson Pedro da Silva morou e trabalhou em Londres, na Inglaterra, durante quatro anos como garçom em um restaurante. Ele retornou ao Brasil em 2006 e hoje é dono de um restaurante em Apucarana. “A rotina de trabalho lá fora, para mim, era muito variada. Havia dias em que eu trabalhava até 13 horas por dia. Mas, em média, o normal era um serviço de sete horas diárias. O sistema lá proporciona essa flexibilidade, de acordo com o volume de serviço que há no dia”, afirma ele.
Na Inglaterra, bem como em boa parte da Europa, Estados Unidos e Ásia, o pagamento é feito semanalmente, calculado pelo número de horas trabalhado. “Era mais justo, na minha opinião. Eu recebia pelo valor que eu, de fato, havia trabalhado. Não havia salário fixo mensal. Havia um acordo entre patrão e empregado estabelecendo os horários de trabalho e eu sabia mais ou menos quanto receberia a cada semana”, diz Anderson.
Uma das vantagens do trabalho no exterior, que atrai muita gente, é que o valor pago é maior do que no Brasil para a maioria dos serviços. Outra característica é de que boa parte dos cargos possuem remunerações próximas, diferentemente do que acontece por aqui, onde a diferença de salários é grande.
“Lá fora, quem quer ganhar mais trabalha mais. Quem estabelece um padrão menor de vida, trabalha menos. Lá, você trabalha o quanto acha que precisa para custear seu estilo de vida”, diz Anderson.

Menos feriados e descontos na jornada de trabalho no Japão
O fotógrafo Claudemir Matsui foi a Tókio buscar novas oportunidades de emprego. Após seis anos morando no Japão, ele retornou ao Brasil em 2010. “Trabalhei em uma fábrica de rolamentos e fazia trabalhos fotográficos aos finais de semana. A rotina de trabalho era parecida com qualquer indústria brasileira: eu trabalhava de segunda a sexta-feira durante oito horas diárias”, diz ele.
No entanto, a grande diferença era o salário. “Lá, um operário tem a possibilidade de ir em um bom restaurante nos finais de semana, viajar, enfim, ter um bom padrão de vida. O pagamento lá é por hora, ou seja, dependia de quantos dias eu ia trabalhar. Não havia salário fixo mensal. Havia pagamento de 25% a mais caso precisasse fazer hora-extra. Se fosse no fim de semana, o valor era de 50% a mais. Eu achava mais justo do que aqui”, afirma.
Segundo ele, o calendário japonês também favorecia. “Não havia feriados espalhados pelo ano todo, como aqui. Lá, há feriados de uma semana a 10 dias, em três ocasiões diferentes do ano, onde as pessoas podiam viajar e aproveitar melhor. Além disso, não havia 13º salário. No entanto, era padrão das empresas dar bonificações de acordo com a lucratividade da empresa”.
Assim como na Europa, apenas a contribuição previdenciária era descontada do salário. “Esse desconto nós víamos o retorno na Saúde, na Educação, na Segurança Pública... Acho que as grandes diferenças entre trabalhar aqui e no exterior são essas: lá, há retorno para os impostos pagos e o salário é muito bom. Acho que desburocratizar as relações de trabalho no Brasil é um passo importante, mas também é preciso que essas outras coisas acompanhem”, diz.

Flexibilização traz maior concorrência por vagas
Outro apucaranense que trabalhou no exterior foi Rodolfo Brizola. Hoje estagiário em uma instituição de ensino, ele trabalhou por 11 meses em Dublin, capital da Irlanda, retornando ao Brasil em 2015. “Trabalhei como zelador e camareiro em dois hotéis. O serviço era bom, mas puxado. Trabalhava de seis a oito horas por dia, de quarta-feira a domingo”, diz.
Rodolfo aproveitou o período na Europa também para viajar. “Lá, as relações de trabalho eram mais maleáveis. Eu conseguia tirar bons períodos de folga para poder viajar pelos países da Europa. Além do mais, ganhava bem para poder aproveitar. Esse é o grande diferencial. A compensação financeira dava liberdade para que as relações de trabalho pudessem ser mais leves”, ressalta.
Mas, segundo ele, havia alguns aspectos negativos. “Com essa flexibilidade e alta concorrência entre estrangeiros por trabalhos como o que eu fiz, era bem fácil ser mandado embora. Mesmo assim, acho que o sistema funciona bem melhor. No Brasil temos muitos impostos. Lá, o dinheiro parece melhor utilizado do que aqui, tanto dos impostos quanto dos salários”, afirma.