CIDADES

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Uma segunda chance à vida

Vanuza Borges

| Edição de 03 de abril de 2016 | Atualizado em 02 de dezembro de 2016

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Num piscar de olhos, a vida muda. O corpo se transforma. Já não possui mais as mesmas habilidades. Um filme passa diante da retina e um pedido vem à mente: uma segunda chance. Ao se ver dependurada da janela do 7ª andar de um prédio, na área central de Apucarana, Elisa Helena Gonçalves de Araújo Sousa, 47 anos, pediu exatamente isso: uma segunda chance. Depois de poucos segundos em queda livre, que foi amortecida pelo telhado de uma loja e, no fim, ela quebrou apenas o braço direito, o dedão do pé e o maxilar. Um verdadeiro milagre, que surpreendeu os socorristas do Corpo de Bombeiros na época. O caso aconteceu em agosto de 1987.

Imagem ilustrativa da imagem Uma segunda chance à vida

Dona de um alto astral singular, Elisa explica que a queda não foi um simples acidente. Na verdade, ela, após ficar grávida solteira e perder o bebê no nono mês de gestação, entrou em depressão. Em uma tentativa de chamar a atenção da família - ela pensou em simular a situação - mas o que não imaginava aconteceu: despencou do 7ª andar. “Eu só queria ter minha família de volta”, afirma.

Ao acordar no hospital, ela contou para a família que foi acidente. Somente após um ano e meio, revelou o verdadeiro motivo. Depois da quase tragédia, Elisa afirma que a família ficou mais unida e os problemas passaram a ser discutidos com mais clareza. “Eu estava com depressão, mas na época ninguém sabia disso, e cheguei neste ponto porque não falei para ninguém nem minha família percebeu. Então, isso serve de alerta”, diz.

Se não tivesse sobrevivido, Elisa avalia que seria uma tragédia para todos. “Hoje, eu estou sempre atenta. Eu consigo conversar com a minha filha. Jogo sempre aberto”, garante. O diálogo também virou regra com os pais, os treze irmãos e, claro, com os dois filhos e o marido. Do episódio, Elisa não ficou com sequelas nem com medo de altura. “Só de vez em quando ainda sinto aquele arrepio”, afirma.

Diferente da dona de casa, o apucaranense Juarez Pinto de Almeida, 61, carrega até hoje, dez anos depois de sofrer um acidente, marcas de um acidente gravíssimo. Com dificuldade para andar, ele recorda que no dia 15 de dezembro de 2006, bateu a caminhonete, que dirigia, próximo à entrada de Califórnia. Ele foi acordar oito dias depois na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), do Hospital da Providência. Quebrou as pernas em vários lugares, o nariz, além de ter órgãos perfurados, e a visão comprometida.

Ao ir para o quarto, ele pegou uma infeção hospitalar. Foram mais quatro dias na UTI. No total, foram 40 dias internado. Ao voltar para casa, a rotina era outra. Passou de cuidador das filhas, Michele, 32, Eliane, 30 e Ane Caroline, 22, a receber cuidados. Ficou quase dois anos na cadeira de rodas, mais um período de muletas até voltar a andar sozinho. Atualmente, faz três anos que não precisa mais de auxílio para andar. “Eu era extremamente radical, explosivo, hoje em dia, sou uma pessoa calma. A convivência com a família é mais tranquila”, afirma.

No período de readaptação, fez fisioterapia, ajudou a cuidar da mãe, que era acamada e faleceu em junho de 2014. “O médico disse que eu iria conseguir caminhar cerca de 200 metros, já caminhei mais de 8 km. Foi uma maravilha voltar a andar”, diz.

Apesar de todas as dificuldades, Juarez não reclama do que passou. “A gente tem que entender a vida. Sou mais paciente, feliz, não penso mais somente em trabalhar e ganhar dinheiro. Nunca vivi tão bem. Antes só vivia para o trabalho, correndo, agora não. Eu vivo a vida. Aproveito a minha família”, sublinha. Ele é o responsável por buscar as netas da escola, Evelyn, 6, e Rayssa, 2, e levá-la para brincar na pracinha do bairro.

É preciso tomar as rédeas’, afirma cadeirante

Assim como Juarez Almeida, a publicitária apucaranense Márcia Regina Danjô, 44, teve a vida mudada após um acidente de trânsito. Ela ficou tetraplégica após capotar o carro que dirigia, próximo ao Núcleo Habitacional Adriano Correia, em 2000. Márcia estava com a filha, Kawene, hoje 23 anos, que sofreu apenas pequenos arranhões. Já ela ficou 23 dias internada, sete somente na UTI, após ser ejetada do carro.

Nove meses após o acidente, Márcia foi ao Centro Reabilitação Sarah Kubitschek, onde aprendeu a ter mais autonomia. Após superar o acidente e uma separação, ela, que sempre trabalhou com vendas, decidiu que não tinha motivos para reclamar, mas para agradecer a vida e também por não ter acontecido nada com a filha. “Não tem um plano B. Ficar em casa chorando não iria resolver a minha situação. É preciso retomar as rédeas da vida”, garante.

E foi isso que ela fez, todos os dias Márcia, que mora na Vila Nova, sai com sua cadeira de rodas motorizada para atender seus clientes. Com a renda, ela complementa o orçamento da casa. A única dificuldade é a falta de acessibilidade. “Eu ando na contramão, para ver os carros e conseguir me desviar”, justifica.

Em nenhum momento, ela garante que ficou revoltada ou depressiva. “Eu não troco a minha vida de hoje pela de antes. Hoje, eu sou uma pessoa mil vezes melhor. Com outros valores. Só voltaria a vida de antes, com a bagagem de vida que tenho hoje”, avalia.

Márcia faz questão de ressaltar ainda que seu dinamismo vem de exemplos de amigos cadeirantes, que não deixaram de viver.