Vinte e duas vagas de emprego em sete empresas de diversos segmentos econômicos estavam disponíveis ontem exclusivamente para pessoas com algum tipo de deficiência na Agência do Trabalhador em Apucarana. Entretanto, apenas seis candidatos compareceram durante o dia para as entrevistas ou para deixar currículos, que seriam encaminhados para as empresas contratantes. O número de interessados ficou abaixo do esperado pela unidade e expõe a dificuldade das empresas em cumprir a Lei 8213/91, que trata deste tipo de contratação.
Segundo a lei de cotas para deficientes e pessoas com necessidades especiais, empresas com 100 funcionários ou mais deve preencher de 2 a 5% do seu quadro profissional com beneficiários reabilitados, ou pessoas portadoras de deficiência. Porém, no dia a dia, as empresas não conseguem preencher as vagas destinadas a este público. “Simplesmente não tem demanda. São raras as pessoas que recebem o benefício social que buscam uma oportunidade de emprego”, avalia uma psicóloga, que atua na área de contratação de uma empresa, mas que prefere não ter o nome revelado.
Entre as razões apontadas pela profissional estão o valor do salário ofertado, que, geralmente, é semelhante ao valor recebido do benefício, e também a falta de qualificação profissional. “Em alguns casos, dependendo do perfil, a empresa abre uma vaga de acordo com o perfil do candidato, mas desde que ele tenha condições de desenvolver as atividades da função, porque será tratado como qualquer outro funcionário”, diz a psicóloga. Na empresa em que ela trabalha, de oito vagas disponíveis para deficientes, apenas duas conseguiram ser preenchidas nas últimas semanas.
DIFICULDADES
Para a chefe da Agência do Trabalhador, de Apucarana, Cinira Waldrich, a participação na iniciativa, que faz parte do Dia Nacional de Inclusão Social e Profissional das Pessoas com Deficiência e dos Beneficiários Reabilitados do INSS, ficou abaixo da expectativa, mas a unidade faz regularmente o encaminhamento de pessoas com deficiências para vagas específicas.
“A dificuldade de contratação está atrelada à capacitação. Muitas vezes, a empresa oferta uma vaga, mas o deficiente não consegue atender por cauda de suas limitações físicas. Nesse caso, o contratante pode reavaliar e abrir uma vaga que a pessoa consiga trabalhar sem se prejudicar”, diz.
Sobre o benefício, Cinira observa que o deficiente, em muitos casos, tem medo de abrir mão de algo seguro, por um emprego que não é garantido, principalmente nesse período de crise. “A pessoa com deficiência, caso fique desempregada, pode pedir o benefício novamente, mas por se tratar de um processo muito burocrático, fica em dúvida”, diz.
Em busca de uma carreira
Diagnosticado com mielomeningocele, que afeta a espinha dorsal, desde o nascimento, o estudante do segundo semestre de Administração de Empresas, Guilherme Pereira Xavier, de 23 anos, saiu confiante de uma entrevista de emprego na Agência do Trabalhador em Apucarana.
Ele, que precisa de auxílio de muletas para se locomover, passou para a próxima fase da seleção e espera conseguir a vaga. “Acho que chegou a minha hora de ter o meu emprego, tomar as minhas decisões, de ter as minhas coisas”, diz.
Cheio de energia, ele é considerado um candidato qualificado para várias funções. Além de estudante de Administração, Guilherme fez curso técnico administrativo. “Sempre procuro fazer as minhas coisas sozinho”, garante.
O estudante, que tem carteira de motorista, comenta que sempre teve apoio dos pais, a costureira Sirlei e o pedreiro Vicente. “Para mim, não faz diferença não ter mais o benefício. Eu quero ter experiência profissional e quem sabe um dia ter a minha empresa”, sonha.