Invasões de propriedades e reintegrações de áreas voltaram integrar o noticiário regional. Se em 2014 houve apenas um caso no município de Ariranha do Ivaí, em 2015, até agora, já foram registradas cinco invasões. Apesar de todos os imóveis terem sido reintegrados ou desocupados sem intervenção policial, a tensão crescente entre os sem-terra e os proprietários rurais continua instalada, uma vez que as famílias em busca de áreas continuam acampadas. De um lado proprietários temem novas invasões, de outro sem-terra denunciam ameaças. O aumento da tensão no campo não acontece apenas no Vale do Ivaí, mas em todo estado. Levantamento da Secretaria Especial de Assuntos Agrários do Governo do Estado aponta que de maio do ano passado para cá, o número de famílias acampadas, envolvidas em movimentos que reivindicam áreas, saltou de 4 mil para 12 mil.
Em todo estado foram registradas neste ano 21 invasões de áreas. No Vale do Ivaí, que corresponde com 23% das ocorrências, a onda de ocupações começou em janeiro, quando famílias tomaram a Fazenda Arapongas, em Jardim Alegre e Fazenda Ilha no município de Borrazópolis, ambas foram reintegradas aos proprietários através de decisão judicial. Em agosto, a Fazenda Ilha voltou a ser ocupada, mas em menos de quinze dias foi desocupada pela PM, que cumpriu mandado de reintegração de posse. No mês passado uma nova invasão foi registrada, desta vez na Fazenda Lajeado, no município de Rosário do Ivaí. Na semana passada, o grupo que portava bandeiras da Contag saiu do local e invadiu uma fazenda vizinha, a Santa Izabel e pouco dias depois abandonaram o local.
Para especialistas, a situação é reflexo do agravamento da crise econômica, que tem cortado vagas formais de trabalho e está ocasionando um êxodo inverso. "Aquele sujeito que trabalhava na construção civil em cidades maiores de repente fica sem trabalho e retorna para sua cidade de origem, onde os filhos tem escola, onde tem parentes e onde se sente mais protegido", comenta o assessor especial para assuntos fundiários Secretaria Especial de Assuntos Agrários do Governo do Estado, Hamilton Serighelli.
Ele destaca que o fenômeno é nacional e deve se agravar por conta do cenário econômico. "A pressão social é muito grande, mas no Paraná, por enquanto, estamos conseguindo resolver tudo de forma pacífica. Nenhuma desapropriação chegou a necessitar de uso da força", comenta.
Segundo ele, o movimento localizado no Vale é atípico porque os sem-terra não estão ligados ao MST, cujos integrantes são parte de quase 90% dos acampados hoje no estado, nem a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). “Apesar dos grupos levarem as bandeiras da Contag, a confederação não reconhece o movimento como deles”, comenta Seriguelli.
Sindicato Rural destaca insegurança
O presidente do Sindicato Rural de Ivaiporã, Lourival Goes, comenta que o setor está em alerta. “Não tem cabimento o que está acontecendo aqui na nossa região. É pressão dos movimentos sociais devido a essa crise política que acontece no país. Na verdade, eles usam os agricultores como escudo para pressionar o Governo a dar terra para eles. O Governo não dá e fica essa tensão entre nós e eles. Infelizmente, com essa crise financeira, a tendência é perdurar esse clima e vamos continuar sofrendo com isso”.
Agricultores da região afirmam estar se sentindo ameaçados. "A coisa é feia, estão invadindo terra produtiva. Daí fica todo mundo tenso, com os nervos à flor da pele. Rezo todos os dias para que não aconteça uma ação mais brusca de uma das partes, porque se tiver, o pior pode acontecer", conta um agricultor de Rosário do Ivaí que preferiu não se identificar.
Em abril, do ano passado uma fazenda de apenas 50 alqueires no município de Ariranha do Ivaí foi ocupada por cerca de cinco famílias, com cerca de 30 pessoas. Até a decisão judicial de reintegração de posse que durou cerca de seis meses, o proprietário Francisco Aurélio Mendonça conta que teve um prejuízo de cerca de R$ 60 mil.
“Tive muito prejuízo. Perdi a safra de trigo e eles fizeram uma destruição grande na casa, nas mangueiras. Além disso, tive despesa com advogados e, além de tudo, tiver que pagar o transporte deles até mesmo para Sarandi”, comenta Mendonça.
Famílias sem-terra denunciam ameaças
Do outro lado o clima também é tenso. No início de outubro, famílias de sem-terra que foram desalojadas da Fazenda Ilha, em Borrazópolis e estão acampados em barracos na estrada conhecida como Água Doce foram vítimas de ameaças por quatro homens que estavam encapuzados e armados com revólver e registraram queixa na Delegacia de Polícia de Borrazópolis.
Segundo relata o acampado Valdinei Oliveira Machado, os homens chegaram por volta das 4 horas da manhã e depois de destruírem e incendiarem alguns barracos passaram a fazer ameaças de morte. “Eu mesmo perdi minhas roupas e todos os meus documentos que estava dentro do barraco. Eles puseram todo mundo deitado no chão e foram queimando tudo e diziam que a gente não podia ficar aqui e se nos quiséssemos terra seria a do cemitério”, relata Machado. Ele comenta ainda que desde então, o grupo está alerta e tem se revezado a noite em vigília. “Nós nunca tivemos problema com os vizinhos e jamais imaginamos que podia chegar a esse ponto. Agora estamos preparados”, comenta Machado.
De acordo com Machado, estão acampadas no local cerca de 20 famílias, no entanto, existem cadastrados no movimento mais de 100 famílias da região. “Os que estão aqui é porque não tem nenhum local para ficar. A nossa ideia é aguardar por aqui até que o Incra a compra da fazenda”, comenta Machado. Segundo ele, as famílias integram o movimento Terra-livre.