CIDADES

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Violência desafia professores em sala

Vanuza Borges

| Edição de 27 de agosto de 2017 | Atualizado em 25 de janeiro de 2022

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A imagem do rosto ensanguentado da professora catarinense Márcia Friggi, de Língua Portuguesa, ganhou os principais portais de notícias e as redes sociais de todo o Brasil na última semana. A foto retrata parte do cenário da escola no Brasil e expõe a rotina de milhares de professores, que convivem diariamente com algum tipo de violência, seja física ou verbal, que é a mais comum. No início do ano, de acordo com dados plataforma QEdu, do Ministério da Educação (Mec), revelou que na região cerca de 55% dos professores já sofreram algum tipo de agressão física ou verbal em sala de aula.
De acordo com o relatório da Patrulha Escolar, que registra o boletim de ocorrência quando é acionada pelas escolas, nos dezesseis municípios de abrangência do Núcleo Regional de Educação (NRE), de Apucarana, neste ano foi registrado um caso de agressão de aluno a professor. No ano passado, também foi registrado um caso de agressão de aluno contra professor e outro caso de agressão de professor contra alunos. Os municípios das ocorrências não foram divulgados. 
Ainda segundo o relatório feito pela Patrulha Escolar, neste ano, quatro ocorrências foram registradas por professores, que foram ameaçados por alunos. No ano passado inteiro, nove professores registraram queixa por este motivo. Em 2016 também foram registradas onze ocorrências por desacato, neste ano nenhum caso foi registrado. 
A violência não ocorre apenas entre professores e alunos. O relatório da própria Patrulha Escolar revela também a violência entre os alunos. De janeiro a agosto deste ano, dezenove casos de agressão física entre alunos foram registrados, mesmo número do ano passado inteiro. 
Os dados, apesar de chamar a atenção, não é um retrato fiel da intensidade de ocorrências de violência no âmbito escolar. Em muitos casos é comum não registrar a queixa. Um exemplo vem do professor de Língua Portuguesa, de 37 anos, que pediu para manter a sua identidade em sigilo. 

EXPERIÊNCIA
Ele recorda que durante uma dinâmica em sala de aula, em Sabáudia, percebeu que uma aluna estava provocando um dos colegas com guarda-chuva. “O menino, sempre muito fechado, não estava gostando, como maneira de me aproximar, fiz uma brincadeira e falei: isso vai dar casório. Ele continuou com a cara fechada e, no final da aula, se aproximou e deu um soco no meu braço”, conta. 
O professor comenta que avisou a coordenação pedagógica, que verificou as imagens da sala de aula e viu que o ambiente era de descontração. “Sempre fiz uso da brincadeira para me aproximar dos alunos. Entendo que ele possa não ter gostado do que falei. De repente, eu deveria ter percebido o jeito dele e ter feito outra abordagem, mas não precisava ter me agredido“, avalia. 
Sobre não fazer o registro da ocorrência, o professor explica que entendeu que não era necessário. “A pedagoga conversou com o aluno e a situação foi resolvida. Eu levei em consideração o aluno, apesar de não entender que nada justifica a violência”, afirma.
Agressão física, que ocorreu em 2014, não foi a única. “Um aluno já me disse em sala que quando eu saísse era para ficar esperto porque iria me dar um tiro. Eu me assustei na hora. Depois, num outro dia, me aproximei dele novamente brincando e ele pediu desculpas”, relata.
Da escola, o professor também tem boas lembranças e razões que o movem a permanecer na profissão. “Um dia, no contraturno, um aluno se aproximou e pediu uma explicação de um conteúdo, bem simples por sinal. Passou umas três semanas, ele veio e me abraçou, me pegou no colo e me agradeceu muito por ter ajudado ele a passar de ano. Isso é motivador”, garante. 

Intermediação de conflitos em sala de aula 
O ouvidor do Núcleo Regional de Educação (NRE), de Apucarana, professor Jorge Luiz dos Santos, reconhece que a violência na escola é preocupante. “Na escola, as diversidades se encontram e essa violência aflora. Não podemos excluir o ambiente escolar do contexto social, que também vem passando pelo mesmo problema”, diz. 
De acordo com o ouvidor, o NRE durante a capacitação dos professores tem trabalhado a intermediação de conflitos. “Em situações específicas, o Núcleo tem feito um trabalho mais intenso em determinadas escolas para abordar o uso de drogas e a violência”, diz.
Santos observa que o NRE tem trabalhado em parceria com o sistema de rede para os alunos, que quando identificados são encaminhados para o sistema de saúde ou assistência social, dependendo da situação. Já quanto aos professores, eles são encaminhados para o Sistema de Assistência à Saúde (SAS) do Estado, para atendimento médico. “Além do amparo pelo SAS, quando necessário, transferimos o professor de escola”, afirma. 

Conflitos são constantes
O professor Reginaldo Peixoto, que trabalha na Educação há 19 anos, revela que já foi vítima de agressão verbal. Ele passou por essa situação não só no Ensino Fundamental, onde leciona Língua Portuguesa, mas também no Ensino Superior. “O aluno estava perturbando a aula, ria o tempo todo e falava coisas que se distanciavam do conteúdo. Eu chamei a atenção e ele disse uma série de palavrões. Foi algo muito constrangedor. A gente se vê acuado e com medo do que possa acontecer posteriormente”, diz sobre a situação que passou com um aluno do 6º ano.
A situação foi encaminhada para a coordenação e, ao final, o aluno entendeu que o comportamento foi inadequado para a sala de aula. “Às vezes é um dia ruim do aluno. Está com problemas com a família e, na sala de aula, acaba refletindo em discussão. 
Já na universidade, onde é professor de Pedagogia, Reginaldo revela que passou por momentos de acuação. “O aluno fez piada durante a aula durante uma explicação sobre um conceito científico. Interrompeu acusando que era mentira. É uma situação delicada”, diz. O caso ocorreu na Unespar, de Apucarana.
Para o professor, a escola assim como a universidade ainda não encontrou uma forma de resolver o problema da violência. “Vários estudos estão sendo realizados na área, mas a indisciplina continua. Alguns pesquisadores defendem que esse problema é de ordem social e, por isso, está presente nos estabelecimentos de ensino. Eu penso que faltam políticas públicas e legislações em defesa da educação e das condições de trabalho dos docentes”, argumenta. 
Sobre a educação básica, ele entende que os problemas que o aluno traz para a escola deveriam ser investigados e tratados por profissionais externos como psicólogos e assistentes sociais.