BISPO DOM CARLOS JOSÉ

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A construção da civilização do amor em mundo marcado pela violência

Da Redação

| Edição de 15 de julho de 2026 | Atualizado em 15 de julho de 2026

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No quinto capítulo da Encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV dirige sua reflexão para um dos maiores desafios da humanidade contemporânea: a construção da paz em um mundo marcado pela violência, pela corrida armamentista e pelo crescente uso da inteligência artificial nos conflitos. O Pontífice alerta que a questão não diz respeito apenas ao desenvolvimento de novas tecnologias, mas ao risco de que a técnica, quando desvinculada da ética, torne cada vez mais impessoais as decisões sobre a vida e a morte. 

Em uma sociedade profundamente interdependente, a paz deixa de ser apenas um ideal e passa a constituir uma condição indispensável para o bem comum universal. Retomando as imagens bíblicas da Torre de Babel e da reconstrução de Jerusalém, apresentadas no início da Encíclica, Leão XIV afirma que a humanidade se encontra diante de duas possibilidades. A primeira é a cultura do poder, marcada pela lógica do domínio, da polarização e da busca incessante por superioridade tecnológica e militar. A segunda é a civilização do amor, inspirada no Evangelho e na Doutrina Social da Igreja, que compreende o desenvolvimento como serviço, cooperação e promoção da dignidade humana. 

A escolha entre esses dois caminhos determinará o futuro da convivência entre os povos. Inspirando-se em São Paulo VI e retomando a reflexão de Fratelli tutti, o Papa recorda que a civilização do amor não é um ideal ingênuo, mas um projeto concreto de organização da vida social. Ela nasce quando a caridade se transforma em justiça, quando a fraternidade inspira as instituições e quando cada pessoa e cada povo deixam de ser vistos como adversários para serem reconhecidos como parceiros na construção do bem comum. 

Na era digital, essa proposta torna-se ainda mais urgente, pois a interdependência criada pelas redes e pelas novas tecnologias exige uma solidariedade igualmente global. Em contrapartida, Leão XIV denuncia a consolidação de uma cultura do poder, na qual a guerra volta a ser apresentada como instrumento legítimo da política internacional. O Papa manifesta profunda preocupação com a normalização dos conflitos, o enfraquecimento da memória histórica, a disseminação da desinformação e a corrida por armamentos cada vez mais sofisticados. Particularmente grave é a aplicação da inteligência artificial aos sistemas de armas, que pode reduzir a responsabilidade humana, acelerar decisões letais e transformar pessoas em simples alvos identificados por algoritmos. Nenhuma máquina, afirma o Pontífice, possui consciência moral capaz de decidir sobre a vida humana. O capítulo dedica especial atenção à crise do multilateralismo e à fragilidade das instituições internacionais responsáveis pela promoção da paz. 

Segundo o Papa, a solução para os conflitos não será encontrada na lógica da força, mas na recuperação da diplomacia, do diálogo e da cooperação entre as nações. A verdadeira segurança não nasce da multiplicação das armas, mas da confiança construída pela justiça, pelo respeito ao direito internacional e pelo reconhecimento da dignidade de todos os povos.

Longe de limitar-se a uma análise dos problemas, Leão XIV apresenta caminhos concretos para a construção da paz. Entre eles, destaca a necessidade de “desarmar as palavras”, evitando discursos de ódio e polarização; construir a paz a partir da justiça; escutar o clamor das vítimas das guerras; cultivar um realismo que não se confunda com resignação diante da violência; revitalizar a cultura do diálogo; fortalecer a diplomacia e renovar o compromisso com o multilateralismo. Para o Papa, a paz não é fruto da ingenuidade, mas de escolhas cotidianas que colocam a verdade, a fraternidade e o cuidado com o próximo acima da lógica do poder. Ao concluir o capítulo, Magnifica Humanitas reafirma que todos são chamados a participar da construção da civilização do amor. Governantes, cientistas, educadores, comunicadores, empresários e cidadãos possuem responsabilidades próprias na promoção de uma cultura de paz. Ninguém é pequeno demais para contribuir. Cada gesto de verdade, de reconciliação, de justiça e de solidariedade representa um passo na edificação de uma sociedade mais humana. Sustentada pela esperança cristã e iluminada pela Ressurreição de Cristo, a Igreja continua anunciando que a paz é possível quando a técnica permanece a serviço da pessoa humana e quando o amor se torna o princípio inspirador da vida social, política e internacional.