BISPO DOM CARLOS JOSÉ

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A grandeza humana diante da Inteligência Artificial

Da Redação

| Edição de 24 de junho de 2026 | Atualizado em 24 de junho de 2026

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No terceiro capítulo da Encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV aprofunda sua reflexão sobre os desafios da inteligência artificial e das novas tecnologias, propondo uma questão fundamental: o que estamos construindo como humanidade? Diante das rápidas transformações provocadas pela revolução digital, o Pontífice convida a Igreja e toda a sociedade a discernirem se estamos edificando uma nova Babel, marcada pelo domínio e pela concentração de poder, ou uma nova Jerusalém, fundada na corresponsabilidade, na fraternidade e no bem comum.

Também alerta para os riscos do chamado “paradigma tecnocrático”, isto é, a tendência de submeter todas as dimensões da vida humana à lógica da eficiência, do controle e do desempenho. 

Embora reconheça os inúmeros benefícios trazidos pela tecnologia, o Papa recorda que o progresso técnico não pode ser confundido com progresso humano. Uma sociedade pode possuir mais recursos, mais informações e mais capacidade de cálculo sem, contudo, tornar-se mais justa, mais solidária ou mais humana. 

Ao tratar especificamente da inteligência artificial, Leão faz questão de distinguir claramente a inteligência humana da inteligência das máquinas. Os sistemas de IA podem processar grandes quantidades de dados, realizar cálculos complexos e simular comportamentos humanos, mas não possuem consciência, liberdade, responsabilidade moral nem experiência de vida. Não conhecem o amor, a dor, a amizade, o perdão ou a esperança. Podem reproduzir palavras e gestos, mas não compreendem o significado profundo das relações humanas. 

Por isso, a inteligência artificial jamais poderá substituir a consciência moral da pessoa nem assumir decisões que exijam responsabilidade ética. Leão XIV manifesta preocupação com a crescente concentração de poder nas mãos de grandes empresas tecnológicas que controlam dados, plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial. 

Quando esse poder não é submetido a critérios éticos, jurídicos e políticos adequados, corre-se o risco de gerar novas formas de dependência, manipulação, exclusão e desigualdade. 

Por essa razão, o Papa insiste na necessidade de transparência, responsabilização e participação social na regulamentação dessas tecnologias, para que permaneçam a serviço do bem comum e da dignidade humana. Um dos pontos mais significativos do capítulo é a crítica às correntes transumanistas e pós-humanistas, que apresentam a tecnologia como caminho para superar os limites da condição humana. 

O Papa reconhece o valor dos avanços científicos, mas adverte que a plenitude da pessoa não consiste em eliminar toda fragilidade, sofrimento ou dependência. Pelo contrário, é justamente nos limites, na vulnerabilidade e na necessidade do outro que o ser humano aprende a amar, a servir e a crescer. A verdadeira grandeza humana não nasce do domínio absoluto sobre a vida, mas da capacidade de viver relações de comunhão, solidariedade e cuidado. Nesse contexto, a Encíclica reafirma uma convicção central da tradição cristã: o ser humano não encontra sua realização em uma perfeição tecnológica, mas na abertura ao amor de Deus. A fé cristã anuncia um “mais que humano” que não resulta da fusão entre homem e máquina, mas da ação da graça divina. Como recorda o Papa, a vocação da pessoa humana é transcender-se no amor, tornando-se mais plenamente humana à medida que se aproxima de Deus e dos irmãos.

Mais do que um alerta sobre os riscos da tecnologia, Magnifica Humanitas apresenta uma proposta de esperança. O Papa Leão XIV convida a humanidade a acolher os benefícios da ciência e da inovação sem renunciar àquilo que a torna verdadeiramente humana: a capacidade de amar, de cuidar, de perdoar, de construir relações e de reconhecer em cada pessoa a imagem de Deus.