No domingo, 25 de outubro, o Brasil escolheu seu presidente por 51,79% a 48,21% dos votos válidos, uma diferença de pouco mais de 4,4 milhões entre 124 milhões de votos. Metade do país comemorou; a outra metade, não. Famílias, grupos de mensagens e mesas de bar ainda sentem o abalo de uma campanha que transformou divergência em hostilidade, e a impressão é de que já não concordamos sobre nada. Os números das pesquisas contam uma história mais interessante.
Na pesquisa Datafolha de outubro, cerca de 80% dos brasileiros se disseram favoráveis a reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos. O dado mais revelador não está no total, mas no recorte por voto: o apoio chega a 89% entre os eleitores de Flávio Bolsonaro e a 70% entre os de Lula. Em plena disputa de segundo turno, adversários políticos aparecem do mesmo lado. O consenso, aliás, já foi maior: em 2003, eram 87%. Mesmo assim, é raro encontrar tamanha convergência em qualquer tema nacional.
Até na hora de sonhar com o trabalho, o país parece rachado. Na pesquisa Meio/Ideia, divulgada em 21 de outubro, 43,3% disseram que melhorar de vida é ter o próprio negócio ou trabalhar por conta própria; para 32%, é ter carteira assinada, com férias, 13º e FGTS. Entre os que preferem empreender, 62,3% declararam voto em Flávio Bolsonaro; entre os que querem a carteira, 65,4% em Lula. Mas olhe de novo: as duas respostas falam do mesmo desejo, o de ver o esforço de cada dia se transformar em segurança ou em autonomia, em uma vida melhor.
Nas drogas, o consenso também tem nuances. O Datafolha de março de 2024 registrou 67% contrários à descriminalização da maconha. Em 2023, porém, 76% aprovaram o uso medicinal da planta. O brasileiro parece distinguir muito bem o vício do tratamento, a desordem do alívio da dor. Em abril de 2026, o Real Time Big Data mostrou que 55% consideram o uso imoral, o que confirma que o assunto é, para boa parte da população, uma questão de valores antes de ser uma questão de política pública.
Por fim, há um tema em que a divergência de opinião quase não existe, porque o problema é vivido por todos: o endividamento. Segundo a Peic, pesquisa mensal da CNC, cerca de 82% das famílias brasileiras têm dívidas, patamar próximo do recorde da série, que foi batido cinco vezes seguidas até maio. Isso não é opinião, é percepção sobre o próprio orçamento, e a própria CNC lembra que ela tem caráter subjetivo. Ainda assim, o número fala por si: quatro em cada cinco lares sabem o que é fechar o mês no aperto.
Há ainda uma pista no que une esses números. Em todos os temas, o brasileiro médio parece menos movido por ideologia do que por medo e por cansaço: medo da violência, cansaço das dívidas, desconfiança de mudanças que mexem com valores da família. Quem quiser conversar com esse país precisa começar por aí, e não pelos rótulos de esquerda e direita que tanto agradam a quem vive de brigar. A política que ouve o que as pesquisas dizem, e não só o que as redes gritam, tem mais chance de falar com a maioria.
Seria ingênuo dizer que o país pensa igual. Não pensa, e nem deveria. Mas os dados sugerem que nossas fronteiras ideológicas são menos rígidas do que as redes sociais fazem parecer. Há um Brasil que quer segurança, que busca uma vida melhor pela carteira ou pelo negócio próprio, que separa remédio de vício e que carrega no bolso a mesma preocupação com o fim do mês. É um país que concorda mais do que briga, só que briga mais alto do que concorda.