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Guilherme Bomba: Não quero ser o tema da terapia dos meus filhos

Da Redação

| Edição de 03 de novembro de 2022 | Atualizado em 03 de novembro de 2022

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Tentarei e falharei miseravelmente. Aqui poderia acabar o texto, mas farei um esforço filosófico (e de/na vida), para que a resposta não seja tão breve. Acho que o meu maior medo como pai é o deixar cicatrizes profundas em meus filhos pela minha própria insegurança. Nós pais, nunca temos a intenção de ferir, mas assim como tudo na vida, reproduzimos os modos e medos de nossos próprios pais. Ainda que seja uma pessoa feliz, não posso negar que preciso lutar contra a insegurança dos que mais me amaram nesta vida, não por não confiaram em mim, mas por temerem o futuro. E na tentativa de demonstrar que nos preocupamos, acabamos podando possibilidades. 

Não falarei do padrão, como “engolir o choro”, “homem não chora” e tantas outras expressões “inocentes” que se mostram inimigas no futuro, mas de pequenas ações e frases que se tornam muito mais graves. Meus pais, filhos de lavradores e domésticas, paulistas do lado paterno e baianos do lado materno, cresceram em lavouras, vendo no trabalho (árduo) braçal o único meio de sobrevivência. Sim, eles queriam “outra vida” para mim e minhas irmãs, mas isso não impedia de que medissem com essa régua o que consideravam preguiça, moleza e falta de foco. Eu preferia livros, o que podia ser considerado uma forma de fugir do trabalho. Hoje, nos poucos momentos em que me permito “descansar”, adoro “mexer” e “brincar” com ferramentas. Preciso provar para mim mesmo que sou capaz de consertar minha moto, de instalar equipamentos, cortar a minha grama e por aí vai. 

Não é um problema trabalhar, mas não me permitir descansar sem ter a ideia de que deveria estar trabalhando, isso sim é o problema. Hoje são os meus pais que dizem que devo parar um pouco, mas como mudar o que sou, daquilo que fui feito? E foi pensando nisso, que passei a refletir sobre a paternidade e o outro lado do processo. Pequenas frases que dizemos no momento de tensão tem muito mais força do que aquilo que dizemos com doçura. Dias desses, minha filha não havia estudado para uma prova e, quando fui conversar com ela, sem querer disse que “ela não sabia nada”. Ainda que seja óbvio para qualquer adulto, para ela não se tratava de algo específico daquele conteúdo, mas dela “não saber nada”. Se eu não tivesse percebido, poderia ter repetido isso outras vezes, sem entender que estava incutindo nela que “ela não sabia nada”. 

Eu sei caro leitor e leitora, que hoje isso pode parecer coisa boba, mas reflita, sem preconceitos, quais foram as frases que você ouvia (ou ouve) que o limitam de ser inteiro e completamente feliz? Não digo isso por considerar que os pais sejam responsáveis (únicos) pela nossa autoimagem na fase adulta, mas retirá-los da equação, é esvaziar de sentido a criação que tivemos. 

Por mim, sei do que me limita, o que não significa ter raiva ou mágoa, mas me ajuda a compreender os motivos de minha insegurança com quase tudo, dando suporte para a minha mudança. Para meus filhos, Anna, João e Nina, não quero que sejam médicos, advogados, engenheiros, policiais ou professores... quero que sejam apenas felizes. As dificuldades que podem apresentar são também minhas, seja genética ou socialmente construídas, por isso, me conhecer e me melhorar é a forma que posso ajudá-los. Que sejam livres de meus medos, encontrando em mim apenas apoio e nunca a causa. Errarei, assim como meus pais, tentando acertar, mas saber disso me deixa um passo à frente.