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Guilherme Bomba-O quanto resta do que éramos ontem?

Da Redação

| Edição de 10 de novembro de 2022 | Atualizado em 10 de novembro de 2022

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Eu sempre penso sobre o tempo histórico, pois como historiador sempre tento incluir as ações pessoais dentro de uma logica maior, de um tempo que quase não se percebe as mudanças. Se algum colega historiador e historiadora estiver lendo isso, não estou falando da Longa Duração de Braudel, já que ela é muito maior, mas de uma micro versão em cada um de nós, onde de repente mudamos e sequer percebemos. 

Os adolescentes com quem trabalho todos os dias são a melhor prova de que as pessoas mudam. No primeiro ano, com 14 ou 15 anos, os alunos são ainda cheios de energia e sem autocontrole, infantis. Dizer infantis para um adolescente é o mesmo que xingá-lo, mas que pressa é esse de crescer?

Quando amadurecemos, perdemos a oportunidade de nos expor ao ridículo de errar. Nossa sociedade tão focada no sucesso, abomina o fracasso, mesmo que ele seja parte do processo de se chegar a tal. Em uma sociedade mediada pelas redes sociais, onde todos são bonitos, felizes e atletas, se mostrar ridículo é assumir que não se é perfeito. Pode parecer óbvio e besteira tratar desse assunto, mas assim como quem fuma e sabe que faz mal, não conseguimos superar as “ordens” dessa sociedade que nos padroniza, matando o melhor de nós. 

Quando esses alunos e alunas chegam no terceirão e cursinho, já com seus 17 ou 18 anos, a coisa já é bem diferente. Se antes pedíamos que fossem mais “maduros”, agora pedimos que sorriam. O aluno que se leva a sério (que conceito mais estranho) perde aos poucos o brilho, perde um pouco aquela infantilidade que se permite sorrir e rir do erro, perde a chance de aprender com ele. 

Me pergunto se ser adulto é isso, descobrir que não é possível ser o que se quer e o que a sociedade espera? 

Que possamos crescer, em todos os seus sentidos, seja profissional e humanamente, que possamos libertar a criança que vive dentro de cada um de nós. Sabe aquela criança que tinha medo de andar de bicicleta e mesmo com o joelho ralado aprendeu a pedalar por aí? Ela tem outros medos que teve que fingir que não tinha. Ela tem sonhos que teve que “esquecer” para agradar. 

Que crescer seja fazer bem para a criança que escondemos do mundo que nos quer sérios. Já percebeu que na velhice voltamos a ser crianças? Isso acontece pois depois de uma vida toda de lutas, ao menos ali temos o direito de ser sensíveis e frágeis como uma criança. Há beleza, inclusive nisso, mas olhamos sempre pela perspectiva do que “perdemos”, não do que ganhamos, que é mais tempo e oportunidade de demonstrar o quanto amamos quem nos amou. 

Uma criança ama e pede amor, dá e pede atenção. Tem um lado bom em ser criança, permita que ela exista em você. Afinal, o que há em você do que já foi um dia?