GUILHERME BOMBA

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A epidemia do esgotamento emocional

Da Redação

| Edição de 14 de maio de 2026 | Atualizado em 14 de maio de 2026

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Há algum tempo, começamos a chamar tudo de cansaço. Talvez porque admitir exaustão soe mais aceitável do que reconhecer aquilo que realmente estamos nos tornando.

Estamos cansados. Muito cansados. E isso é verdade. Basta olhar ao redor. Pessoas sobrecarregadas, emocionalmente drenadas, tentando sobreviver entre cobranças, boletos, frustrações, trânsito, metas, relações desgastadas e uma necessidade quase doentia de continuar funcionando mesmo quando já não se tem energia sequer para sentir.

Mas existe algo perigoso acontecendo silenciosamente no meio desse colapso coletivo: o esgotamento emocional começou a ser usado como autorização moral. Gente cansada começou a machucar gente cansada.

E o mais assustador é que isso deixou de causar espanto.

A resposta atravessada virou “normal”. A impaciência virou traço de personalidade. A agressividade cotidiana passou a ser confundida com sinceridade. Há pessoas que já não pedem desculpas; apenas avisam:

“Eu sou assim.”

“Quem me conhece sabe.”

“Sempre fui desse jeito.”

Como se permanência fosse virtude. Como se nunca mudar fosse prova de autenticidade. Como se consciência emocional fosse opcional.

Criamos uma geração que fala muito sobre saúde mental, mas que desaprendeu completamente o impacto que causa na saúde mental dos outros.

Pais cansados ferem filhos cansados.

Casais emocionalmente drenados se transformam em depósitos mútuos de frustração.

Amigos já não se escutam, apenas descarregam. Ambientes inteiros passaram a funcionar sob tensão constante, como se viver irritado fosse apenas parte inevitável da vida adulta. E talvez seja justamente aí que mora a parte mais cruel dessa epidemia: ela raramente chega gritando. Ela vai entrando devagar, pelos detalhes. Pelo tom de voz. Pela ironia constante. Pela grosseria pequena, diária, repetida. Pela perda gradual da delicadeza.

Porque ninguém se torna alguém frio de uma vez.

Primeiro a pessoa apenas tolera o ambiente. Depois aprende a sobreviver nele.

Até que um dia percebe que começou a responder como aquilo que a machucava.

E há perdas que acontecem muito antes de irmos embora de um lugar.

Perdemos partes de nós quando começamos a aceitar como normal aquilo que um dia nos assustou. Quando precisamos endurecer para permanecer. Quando a única maneira de continuar é deixando morrer justamente aquilo que havia de mais humano em nós.

Talvez por isso algumas pessoas partam antes. Não por fraqueza. Mas porque entenderam, no último instante possível, que permanecer tempo demais em certos ambientes cobra um preço alto demais: a deformação silenciosa do caráter, da sensibilidade e da própria identidade.

E não, isso não significa viver sem conflitos, sem dores ou sem dias ruins. Todos temos nossos limites. Todos sangramos em silêncio às vezes. O problema começa quando transformamos nossas feridas em licença para ferir.

Dor não pode virar desculpa para crueldade.

O mundo já está cansado demais para precisarmos sobreviver uns aos outros também. E, se endurecer for necessário para sobreviver, renascer talvez seja o melhor caminho, pois de um jeito ou de outro, já morremos se não pudermos ser quem somos.